quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Sobre a vida e seus ciclos...

Há momentos em que a gente precisa respirar fundo, olhar pro céu, ver o sol e perceber que, assim como a lua aparece no céu todos os dias com hora marcada pra sumir de novo; assim como as estações do ano, assim como a gestação de uma vida e, em última instância, assim como a própria vida; todos os ciclos acabam. Tudo tem um fim e é natural que assim seja, porque nós também somos finitos.
"A única certeza na vida é a da impermanência..."
Fechei um ciclo em junho. Um longo, produtivo e muito feliz ciclo de trabalho. No primeiro instante, claro, é tudo muito estranho. Mas, aos poucos, a gente vai aprendendo a olhar pra trás com generosidade, a ver o quanto as experiências vividas foram únicas e valiosas, a reconhecer o quanto tudo aquilo que vivemos ajudou a nos formar, a nos transformar...a nos construir. E, sim, a gente aprende a celebrar as amizades e aprendizagens que, independentemente de qual seja o próximo passo, seguirão conosco.
Aos leitores e telespectadores, o meu muito obrigado pelo carinho. Pelas mensagens, pelas perguntas, pela atenção. Demorei a falar da minha saída do "Salto para o Futuro" aqui no #BlogdoMuka porque queria que o texto fosse assim: sereno e leve, como acho que a gente deve se esforçar pra ser na vida. Só agora foi possível.
E, assim, voltamos à nossa programação normal...

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Valeu, Veveta!


Hoje faz uma semana que essa bolinha de pelos foi-se embora, pouco mais de 24 horas depois de entrar nas nossas vidas. Ivete trouxe muita preocupação e apreensão; era frágil demais. Mas também trouxe muita alegria, muito amor. Arrancava sorrisos por onde passava, de gente que logo associava aquela cachorrinha peluda e meiga ao furacão baiano de quem "roubamos" o nome. 
Ivete trouxe um respiro de afeto em meio aos últimos dias, cheios de notícias tão duras e difíceis espalhadas por toda parte. Trouxe esperança de que ficaria bem e de que as alegrias - que já eram tantas - logo se multiplicariam a cada caminhada mais longa, a cada queda desajeitada sobre o tapete da sala, a cada xixi feito no tapete higiênico, a cada noite de travessuras...
Como disse semana passada no Instagram, Ivete tirou os pés do chão e os colocou numa nuvem bem fofinha lá no céu dos bichinhos. Nos deixou com saudades. E certos de que o amor, quando dividido, só faz crescer. Com ela, Pedro e eu aprendemos muito. Aprendemos a nos dividir em vários, a multiplicar nossa capacidade de desempenhar tarefas, a servir papinha de bebê com seringas, a domar um filhote resistente às porções de vitamina e vermífugo. Aprendemos a rir do caos que acompanha a chegada de um cãozinho numa casa e a desenvolver estratégias para diminuir os estragos ocasionados por esses devastadores tsunamis de quatro patas. Mas também aprendemos a enxergar o amor que esses seres tão frágeis nos dedicam; a reconhecer o receio contido nas batidas aceleradas de um coração de filhote; a acalmá-lo e a perceber o carinho contido nos olhos de quem não tem outra forma de traduzir seus sentimentos.
Teríamos feito muito, muito mais por Ivete. Não deu tempo. Mas ela também nos ensinou que há dores nas quais a gente não precisa mergulhar. Porque a vida é curta demais, voa rápido demais. De certa forma, Ivete nos preparou e moldou para a chegada de Edith, de quem certamente ainda falarei muito aqui no blog. Mais que tudo: Ivete nos lembrou que só o amor pode trazer leveza para nossas vidas nesses tempos tão áridos, obscuros e tristes que estamos vivendo. E por essa lição lhe somos muito agradecidos.
Valeu, Veveta!

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Pra Ana...

Parque Lage, Rio de Janeiro. 


Já disse que aprendo muito com você? 
Não só sobre trabalho, sobre aquilo que nos mobiliza dia após dia. 
Aprendo sobre ser. 
Sobre como ser. 
E sobre o ser que quero ser... 
Aprendo a ser apesar. 
A ser leve apesar dos pesos da rotina. 
A sorrir apesar do que nos faz querer chorar e sumir. 
Aprendo a respeitar quando a hora é de choro. 
Aprendo a dividir. 
Aprendo a respirar. 
A pensar e a repensar. 
Aprendo a não desistir; porque às vezes pode parecer mais fácil, mas essa não é uma opção que nos seduza. 
Ou que nos motive. 
Aprendo a seguir. 
A olhar pro horizonte e reconhecer que, sim, há beleza. 
E que ela é muita, mas não nos impede de perceber o caos que também há. 
E que também é muito.
Aprendo a crer no amor. 
Esse, verdadeiro, imenso, que não destrói e nem mata. 
Nesse amor que é fortaleza e que nos move mesmo quando o que nos desafia é o imponderável.
Nesse amor generoso, amor amigo, que é braço e abraço.
Que é ombro e colo,  riso e lágrima...

Hoje, voltando pra casa, elaborei que a vida só tem sentido quando a gente a divide. Quando a gente se permite compartilhar. Quando a gente se abre para os laços verdadeiros, para as conexões que se mostram ao longo da nossa estrada. E vi que voltei pra casa muito mais forte do que estava quando saí. Sim, achei que ia te dar uma força e voltei me sentindo muito mais forte. Forte por ter a possibilidade de ter pessoas como você a me inspirar, ensinar, emocionar, mover e comover. 
Forte e orgulhoso de poder dizer que fiz uma amiga como você no meio de uma caminhada tão atribulada e dolorida. 
Obrigado por dividir comigo essa viagem, viu?
Também te escolhi pra viajar comigo por essas estradas incertas, ora incríveis e ora tão tortuosas.
Mas sempre nossas.
Beijo!



quarta-feira, 3 de junho de 2015

Esses nossos laços...


Nos últimos dias, vivi duas experiências que me fizeram pensar bastante na força das verdadeiras conexões que estabelecemos ao longo da vida. Não falo das conexões 3 ou 4G, da banda larga ou do wi-fi. Falo daquelas que construímos com outras pessoas, amigos e amigas que temos a oportunidade de encontrar em meio às venturas e desventuras do cotidiano.
Acordei querendo saber de uma. Pensei em mandar mensagem, desisti. Quis ligar, ouvir a voz. Marquei e em menos de uma hora estávamos juntos; pondo fim a uma sucessão de desencontros acumulados em meses daquela enrolação típica dos cariocas. "Vamos marcar?", dizia um. "Claro", respondia o outro. E nada acontecia. 
Dessa vez aconteceu.
E como agradeci por ter tido o insight. Por te ver, por me fazer presente. Por poder ouvir e dizer. Por atestar a solidez da nossa história, do que construímos. Por reforçar a certeza de que o tempo e a distância não nos afastaram ou reduziram nossas afinidades. Por poder te ver sorrir, por te levar pra tomar uma brisa fresca no fim de tarde, mesmo no meio da ventania do olho do furacão. E por mostrar que estou aqui. Sempre.
Pra outra eu liguei. Ouvi que ela tinha sonhado comigo na noite anterior. Ouvi que seu bichano de estimação estava pior e que talvez fosse preciso fazê-lo descansar do sofrimento dessa terra. Mas fiquei feliz com sua serenidade, com sua voz sempre doce e terna e com as outras notícias, do mundo do trabalho. Marcamos um encontro que talvez não saia. Não importa: seguimos ligados.
Falo desses laços. Falo de entender quando um amigo precisa, de seguir a intuição. De não deixar pra amanhã aquela mensagem, aquela ligação, aquele encontro. De se fazer junto, dar as mãos, estar presente. No fim de tudo, o que importa são esses laços fraternos, perenes. 
Sinceros. 
Nossos.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Sobre debater e respeitar...

As redes sociais tornaram os diálogos calorosos, a despeito de barreiras como as impostas pelas distâncias geográficas. As infinitas possibilidades de interação enriqueceram as trocas pela internet e acabaram por nos colocar em contato permanente com gente de todos os cantos do mundo. Um grande ganho, sem dúvida, para quem está disposto a refletir, trocar impressões e crescer - mesmo com eventuais discordâncias. 
Acontece que as opiniões que antes partilhávamos apenas com os mais próximos agora estão acessíveis a todos. Aos que pensam parecido e aos que se opõem completamente. Aos que sabem e aos que não sabem argumentar. Aos que querem o diálogo e aos que querem apenas o embate superficial. Aos que acreditam nas trocas e aos que apenas parecem interessados em disputar uma cansativa queda de braço ideológica. Aos que refletem e aos irresponsáveis, incapazes de pensar nas consequências de opiniões e atitudes expostas na web...
E aí, meus amigos, é bem difícil. Não acho que todos tenhamos que concordar, não quero me cercar apenas de pessoas com pensamento idêntico ao meu e muito menos me coloco como dono da verdade - até porque, convenhamos, a verdade sempre vai ser relativa. Mas creio que há premissas e valores fundamentais; norteadores de nossos discursos e ações. Quando percebo que um eventual amigo cruza essa fronteira em seu perfil numa rede social, fico na minha. Mas não posso tolerar que a ultrapassagem de limites se dê na minha página; seja no Facebook, no Twitter, no WhatsApp ou aqui no blog. Por isso, tenho buscado me afastar dos que disseminam preconceitos, dos que fomentam qualquer prática discriminatória e dos que defendem qualquer postura que não me pareça ética ou compatível com o que determina a nossa legislação. Não posso achar aceitáveis colocações de quem defende a tortura, por exemplo. Ou de quem prega o extermínio, seja de quem for, sob a alegação que for. Sou do bem, sim. E sou, sempre, pela lei e pela vida.
Como jornalista e cidadão, milito no campo da responsabilidade pelos discursos e narrativas que (re)produzimos. Nesse sentido, acho que podemos desempenhar, todos, uma função formativa. Não é louvável defender qualquer prática criminosa; muito menos - e esse tem sido o tema dos debates mais recentes - justificar qualquer forma de violência como uma reação às ações de uma parcela da sociedade considerada como "do mal".
Não acredito nessa lógica maniqueísta, superficial demais para ser aplicada a seres tão complexos quanto os humanos. Somos, todos, "do mal" e "do bem". O que nos diferencia são as oportunidades a que tivemos acesso, a rede de afetos que nos cercou, as experiências de vida e as trocas com nossos pares. Essa geleia geral nos forma e, em alguns casos, deforma. Entender essas variáveis nos torna capazes de olhar para a realidade do outro, diverso, com empatia; buscando o entendimento. E vale a ressalva: compreender não é sinônimo de pactuar, de defender, de aceitar ou de perdoar. Compreender é perceber que cada um é único e faz escolhas com base no repertório que pode construir ao longo de sua caminhada - também única - pela vida. E compreender é reforçar que para os que se desviam dessa estrada, o limite é o das leis. As mesmas leis que valem pra mim, pra você, pra presidenta da república. Porque, por mais que muitos relutem, somos todos humanos. E a violência, o ódio, a ganância e a delinquência são, também, características dessa nossa estranha raça.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

150!



Havia, em algum lugar, esse outro alguém. Esse outro alguém de fala mansa e brilho nos olhos, de sorriso matinal e sono invencível, de doçura e entrega...
Alguém que soma, impulsiona, orienta, acalma e acalanta. Alguém que sonha junto e ensina que os melhores sonhos são os que sonhamos de pés no chão. Alguém que traz segurança e aconchego. Alguém que fala os maiores impropérios pra me arrancar as maiores gargalhadas. Alguém que desperta orgulho...
Esse alguém que surgiu não como uma aposta, mas como uma improvável certeza. Porque não nos conhecemos: nós reconhecemos. E esse alguém surgiu como um velho conhecido que havia experimentado uma ausência prolongada. Como quem sempre soube do seu lugar. 
Aqui...

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Redução, não!

Capas de hoje de O Globo e Extra: a sociedade precisa escolher entre duas formas de olhar para uma questão séria como a da maioridade penal

O caso do cardiologista assassinado na Lagoa, no início da semana, reacendeu várias polêmicas. A mais visível diz respeito à redução da maioridade penal. Movidos pela certeza de que o autor do crime foi um menor de idade e aparentemente estimulados pela prisão de um menor suspeito de praticar o crime, defensores de uma revisão drástica do ECA puseram a cara no sol e transformaram as redes sociais numa espécie de palanque em defesa da barbárie institucionalizada. Vi de tudo: gente defendendo uma nova Chacina da Candelária - e se oferecendo para integrar o grupo de exterminadores; gente defendendo tortura; gente (?!?!) defendendo que se faça justiça com as próprias mãos. Gente que quer punir seus supostos algozes praticando carnificina tão ou mais sangrenta do que aquela que nos tem assustado diariamente.
Mas essa foi apenas uma das polêmicas: desde as eleições do ano passado, todo fato capaz de mobilizar as atenções das massas tem servido de base para que reacionários de diversas estirpes promovam seu discurso de ódio, simplista, incapaz de qualquer complexificação. Repetem suas verdades absolutas como mantras e, quando encontram eco, tentam desqualificar e desconstruir quem pensa diferente com argumentações vexatórias. "Tá com pena? Leva pra casa!", dizem, tal qual a âncora de um telejornal fez ano passado. "Quer defender, adote um", repetem, também à exaustão.
Pessoas que não conseguem ir além da barreira do senso comum e, assim, tentam se manter confortavelmente num patamar em que se percebem como o lado bom, responsável por exterminar o lado mau da sociedade.
Sou contra a redução da maioridade penal, por vários motivos. Primeiro, porque acho que o sistema carcerário brasileiro tem se mostrado incapaz de promover a ressocialização - tarefa para a qual foi concebido e que jamais cumpriu. Colocar jovens nesses depósitos de gente é nos condenar a todos: eles, a uma vida de marginalidade. E o restante da sociedade, por se manter refém de pessoas que quase sempre saem das prisões piores e mais violentas. Sou contra a redução da maioridade penal porque acredito que a sociedade tem que aprender a cobrar dos governantes o cumprimento da legislação e, no caso, do ECA, reconhecido como uma das mais avançadas legislações do mundo. Sou contra a redução da maioridade penal porque sociedades desenvolvidas de todo o mundo estão caminhando no sentido oposto, elevando a maioridade penal, garantindo mais proteção e assistência aos jovens. Sou contra a redução da maioridade penal porque crianças e adolescentes que cometem crimes são uma parcela ínfima diante do total de menores de idade e, quando analisamos as estatísticas de violência contra crianças e adolescentes, descobrimos que o números de vítimas nessa faixa etária é muitas vezes superior. E, por fim, sou contra a redução da maioridade penal porque não há relatos de um único país no mundo em que essa medida tenha se mostrado eficiente para combater ou debelar a violência. Ou seja: uma sociedade mais segura não nascerá de um ímpeto conservador e revanchista.
Ser contra a redução da maioridade penal, no entanto, não faz de mim um automático defensor de marginais. Não! O que eu quero é que a lei seja cumprida; que eles, quando condenados, cumpram todas as medidas cabíveis e retornem para a sociedade como pessoas melhores. Mas, para isso, a sociedade precisa melhorar; acreditar que isso é possível e que todos, sem exceção, somos frutos das oportunidades a que tivemos acesso. Eu, felizmente, tive a oportunidade de estudar, me alimentar bem, viajar, fazer cursos, ter uma família amorosa e de trabalhar com o que amo. E o que podemos esperar de quem já nasce condenado a não ter oportunidades? 
Sim, há pessoas que, mesmo assim, sem grandes perspectivas, não trilham o caminho da marginalidade. E elas são a maioria. Mas, de uma forma ou de outra, elas receberam uma oportunidade. Um exemplo familiar de trabalho honesto, a crença religiosa, um professor que fez a diferença em sua trajetória escolar - não importa: sempre há a presença de um bom exemplo associado a alguma oportunidade de seguir no caminho da correção. São esses exemplos que devemos semear, para que possamos colher uma sociedade plena de oportunidades para todos.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A #DietaDoMuka...

Em sentido horário: desjejum, almoço, lanche da tarde, pré-treino, jantar e ceia: as seis principais refeições do primeiro dia da dieta...
Iniciei uma dieta há 10 dias. Desde então, tenho publicado - sobretudo no Instagram - fotos e pequenos relatos dessa aventura que é reduzir a quantidade de calorias ingeridas diariamente. Diferentemente de todas as dietas que já fiz - algumas bem radicais, como a da proteína e a Dieta Dukan - dessa vez eu busquei ajuda de uma nutricionista. E não escolhi uma nutricionista qualquer, escolhi minha prima, Bia Dutra, alguém que eu amo e em quem confio incondicionalmente.
E lá fomos nós redesenhar minha dieta, estabelecendo regras, cortando os excessos e suprindo carências. E, de cara, percebi que o ingrediente fundamental desse novo plano nutricional é a disciplina.
Disciplina pra comer de três em três horas - coisa que nunca tive o hábito de fazer, mas que é fundamental pra quem quer emagrecer. Ao fazer as refeições em intervalos menores, a gente acaba por consumir porções reduzidas e mantém, assim, o metabolismo sempre alerta. É como se ele fosse o ponteiro da reserva do carro com pouco combustível: como o tanque nunca está cheio, não sossega jamais!
Disciplina pra ir ao supermercado com mais regularidade - coisa que também nunca me agradou - já que boa parte dos alimentos que passaram a fazer parte do meu cotidiano precisam estar frescos. São verduras, legumes e frutas, que trazem sabores e nutrientes fundamentais para o sucesso da dieta.
Disciplina pra preparar as refeições. Todos os dias. Do café-da-manhã ao jantar, passando pelas marmitinhas de lanches que preciso consumir durante a tarde, e, também, antes e nos intervalos dos treinos na academia.
Disciplina pra manter uma vida social, sair com amigos, ir a festas e me manter fiel a um propósito capaz de me dar um resultado muito mais saboroso que um prato de batata-frita com queijo e bacon do Outback - por mais que seja tentador - e é, muito! - dar uma escapulida e meter o pé na jaca. Ou na batata, no caso...
O primeiro dia foi o mais difícil; lembro bem de acabar de almoçar morrendo de fome. Não é exagero: seria capaz de comer mais uns dois pratos daqueles. Resisti! Fiquei mal humorado, irritado, cansado e sem ânimo. A sensação só passou depois do treino na academia, por conta, imagino, das substâncias relacionadas ao prazer que são liberadas no organismo depois de uma atividade física. 
Do segundo dia em diante, os progressos foram imensos. A sensação de fome foi diminuindo continuamente, trazendo a clara noção de que o corpo já estava acostumado ao novo padrão de alimentação. E fui percebendo outros benefícios: o sono melhorou e o mesmo aconteceu com a disposição ao acordar. Passei a comer mais frutas e, não sei se há relação direta, as crises de espirro foram reduzidas ao longo dos últimos dias. A gastrite sumiu. Depois de quarenta dias sem atividade física, recuperei a forma em uma semana e já estou correndo diariamente meus 6 ou 7km. Enfim, sinto o corpo funcionar muito melhor. E a balança já dá os primeiros sinais de que estou mesmo no caminho certo.
E por que escrevi esse texto? Por que posto as fotos da dieta? Por quê? 
Porque obesidade é um problema de saúde em todo o mundo, inclusive no Brasil. Porque os apelos de consumo são, majoritariamente, voltados para uma alimentação junkie, que, embora saborosa, traz consequências graves para o corpo. Porque fazer uma dieta mais saudável pode ser simples e gostoso e, se eu estou conseguindo, muita gente que não se sente estimulada também pode conseguir. E, por fim, porque as redes sociais são utilizadas pra tanta coisa inútil...! Acho bacana usá-las pra dividir inspirações também. E funciona: não é à toa que tenho recebido mensagens tão legais de amigos e seguidores. Se a gente compartilha fotos de festas, de viagens e passeios, por que não compartilhar um ideal de saúde também?
É isso! E #vamoquevamo!!!

terça-feira, 5 de maio de 2015

Sobre o panelaço de hoje...

Panelas são protagonistas de mais uma manifestação dos insatisfeitos com o rumo do país...

Na noite desta terça, a propaganda política do PT deu origem a mais uma manifestação coletiva em algumas regiões do país. Novamente, de acordo com os primeiros relatos, o som das batidas das panelas ecoou nas áreas mais nobres, como a Zona Sul do Rio de Janeiro. Como escrevi no Facebook, acho válidas todas as manifestações pacíficas. Achá-las válidas, no entanto, não significa que eu as ache eficazes.
Mas não me preocupo com o som das batidas das panelas...
Mais que o barulho do panelaço, o que me assusta mesmo é o silêncio dos que se calam diante da surra dada pelo governador tucano em cerca de 300 professores paranaenses na semana passada...
Ou dos que se calam diante da possibilidade de aprovação da lei de terceirização, que pode oficializar uma tungada histórica nos direitos trabalhistas...
Mais que o barulho do panelaço, me assusta o som das vozes que se erguem contra um programa social que mata a fome de muita gente nos rincões do país. Ou as vozes que se levantam contra as cotas, contra os direitos das domésticas, contra a criminalização da homofobia, contra a laicidade do Estado.
Mais que o barulho do panelaço, o que me espanta mesmo é a cegueira política de quem não sabe quem assume se Dilma for derrubada, de quem não sabe do currículo dos que se apresentam na linha sucessória e, ainda, sequer sabe diferenciar as atribuições da presidenta das atribuições de um vereador.
Por fim, mais que o barulho do panelaço, me assusta mesmo é a hipocrisia de quem sonega o Imposto de Renda com notinhas geladas e sai por aí, com a camisa da seleção, gritando contra uma corrupção abstrata, sem se tocar do quão é tocado por essa praga e de como ajuda a alimentá-la cotidianamente.

terça-feira, 28 de abril de 2015

De que serve a pena de morte?

Marco Archer Moreira e Rodrigo Gularte: fuzilados na Indonésia, brasileiros
ajudaram a reacender o debate sobre a pena de morte

Nesta terça-feira, 28 de abril, Rodrigo Gularte foi fuzilado na Indonésia. Preso em julho de 2004 ao tentar entrar no país com seis quilos de cocaína escondidos em pranchas de surfe, Gularte foi o segundo brasileiro fuzilado por lá neste ano. O primeiro foi Marco Archer Moreira, fuzilado em janeiro, por ter sido flagrado ao entrar no país, em 2003, com 13,4 quilos da droga. 
Os dois episódios mobilizaram diplomatas, juristas, imprensa e, claro, geraram acalorados debates na internet. Por aqui, sobraram críticas aos apelos por clemência, empreendidos pelo governo brasileiro. Acusando a diplomacia brasileira de tentar proteger traficantes, os críticos pareceram se acomodar no argumento de que as leis da Indonésia são soberanas no território do país e, uma vez que os dois brasileiros infringiram a constituição local com plena consciência da gravidade dos delitos cometidos, deveriam, sim, ser punidos de acordo com o que estabelecem as leis do lugar.
Faz sentido, claro. Há lógica no pensamento e me parece um equívoco, nos dois casos, tratar os brasileiros como vítimas. Ou como heróis. O que, para mim, não faz sentido é esse ímpeto revanchista, de gente que festeja e defende cegamente a pena de morte. Estamos em 2015! Será que ainda não ficou evidente que a pena capital não inibe a prática criminosa? Quantas pessoas já perderam suas vidas sem que isso se traduzisse em queda significativa nos índices de delinquência? Ou seja: o que ganha a sociedade quando um criminoso julgado e condenado é assassinado?
Nada!
Não consigo conceber como alguém pode defender uma cena como essa, descrita na reportagem da Folha Online sobre a execução do brasileiro: "Gularte ficou preso a uma estaca com as mãos amarradas para trás e vestia uma camiseta branca com um 'X' preto na altura do peito, para facilitar a mira dos atiradores". Eram 12 atiradores, mas apenas três tinham a munição letal que matou o prisioneiro.
Também não faz sentido essa teimosia em não entender que qualquer Estado minimamente comprometido com a defesa dos direitos humanos precisa se colocar frontalmente contrário a qualquer forma de execução. Portanto, não se trata apenas das mortes de dois brasileiros. Trata-se de trazer para o debate a incompreensível manutenção de uma prática medieval e ineficaz, que só perpetua - e, de certo modo, legitima - a violência. 
Na Europa, por exemplo, nenhum país adota a pena de morte. 
O Estado Islâmico tem a prática de assassinar presos, homossexuais e inimigos.
Acho que somos bem melhores que isso. Fica a reflexão.


domingo, 26 de abril de 2015

#Globo50

Em série exibida para celebrar o aniversário do canal, JN trouxe de volta à bancada a dupla que mais tempo esteve no comando do principal telejornal da televisão brasileira: Cid Moreira e Sergio Chapelin

Eu soube o que era jornalismo pela tela do plim-plim. Na década de 80, cresci vendo Cid Moreira e Sérgio Chapelin dando notícias sobre o Brasil e o mundo e é muito viva a memória de, ainda pequeno, ficar espantado diante do poder (mágico?) daqueles dois homens de saberem tudo o que estava acontecendo no planeta.
Assim, fascinado e brincando de reproduzir o JN, cresci nos anos 80, diante da TV, filho único que era. Vi Leda Nagle fazer entrevistas com astros e estrelas no Jornal Hoje, dei muita risada com Os Trapalhões, me divertia com as aventuras de Juba e Lula na Armação Ilimitada e aprendi o que era deboche com a TV Pirata. Brinquei, cantei e dancei com a Turma do Balão Mágico e me diverti vendo Xuxa ser maluca sem medo de ser feliz em seu Xou.
Em 50 anos, Globo produziu mais de 300
novelas. Algumas, antológicas, como
Vale Tudo
Descobri a alegria de ver um filminho na Sessão da Tarde, acompanhei todos os clipes de Michael Jackson pelo Fantástico, viajei pelo mundo com o Globo Repórter e embarquei em histórias também fantásticas, de tramas como Que Rei Sou Eu?, Vamp, Vale Tudo, Mulheres de Areia, A Viagem, Perigosas Peruas, Cara e Coroa, Barriga de Aluguel, Roque Santeiro, Mico Preto, Lua Cheia de Amor e tantas outras; capítulos de uma história que teve episódios mais recentes em Avenida Brasil. Só nunca tive saco pra Malhação...
Se sou jornalista, em parte devo isso ao tal encantamento inicial pelo JN. Mas, se sou o que sou, e sou um apaixonado pela TV, devo muito disso à incrível capacidade de produção da TV Globo, ao seu rigor com a qualidade técnica, à valorização do talento nacional - e não digo só dos talentos artísticos - e a tantos maravilhosos produtos criados e transmitidos pela agora cinquentenária emissora para todo o país. Sim, temos uma das melhores e mais diversificadas televisões abertas do mundo. E isso, em grande parte, deve ser creditado à ação da Rede Globo.
Por mais críticas que possam ser feitas ao posicionamento político-editorial da empresa em alguns momentos da história do país - inclusive os mais recentes - é impossível não concordar que a TV Globo tem um peso imenso na formação e na consolidação dos valores, da cultura e da própria sociedade brasileira. 
Por isso, pra mim foi especialmente emocionante rever Cid Moreira e Sergio Chapelin na bancada do Jornal Nacional na última sexta. Não pelo que disseram, mas pelo que representam nessa minha particular viagem de construção do que sou. E por perceber como tudo aquilo tudo ajuda a me explicar. E a me entender.
Nesse 26 de abril de 2015, os meus parabéns aos colegas que trabalham na TV Globo. E a todos que por ela passaram e ajudaram a erguer essa potência da comunicação do Brasil. 
Plim-plim!!!

sábado, 25 de abril de 2015

120!

E quando achava que nunca mais, veio a vida a mostrar que, inocentes que somos, sabemos de nada!
E veio o encontro, e vieram os sorrisos, os beijos, a parceria, os abraços. 
Veio aquele nós. Aquele jeito de sermos nós. 
E veio tudo o que nos pertencia e que passamos a compartilhar: pessoas, ideais, rotas de viagem, sonhos, desejos... 
Um tudo que é tanto e que ainda parece tão pouco diante do que pode vir a ser. Diante do tamanho do brilho que irradia dos nossos olhares cruzados. Diante dos corações que estiveram abertos desde o primeiro encontro, desde a saudação inicial. Um tudo que soa como convite para o todo mais de que somos capazes.
Como todas as mais belas flores, nosso tudo também tem espinhos. Sim, a gente também se corta, sangra. Assusta? Sim, claro. Mas só prova que o real é muito mais vivo e belo que qualquer simulacro.
Ou alguém conhece quem prefira flores de plástico? Afinal, se é verdade que elas não morrem, também é verdade que elas não perfumam ambiente algum.
Como também é verdade que minha vida tem sido muito mais cheirosa de uns tempos pra cá...

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Sobre o caso Verônica Bolina...

O que explica o silêncio diante da tortura sofrida pela travesti dentro da cadeia?

Ontem, via Facebook, vi várias postagens que traziam as fotos de uma travesti com o rosto completamente desfigurado. As imagens pipocaram desde o último fim de semana e, de tão chocantes, acabaram por me afastar do fato aterrador que elas ilustravam. Mas ontem, soube de algo que acabou me fazendo correr atrás da história: eu conheci a travesti que aparecia deformada naquelas fotos. Sim, eu conheci Verônica Bolina! Nunca conversamos, é verdade, mas Verônica e eu malhamos na mesma academia por um bom tempo. Voltei às fotos. E fiquei completamente chocado...
Pra quem não sabe, Verônica, uma travesti, presa e sob tutela do Estado, foi aparentemente espancada por policiais depois de uma violenta (suposta) briga com um agente penitenciário. Mais que isso: teve seu cabelo raspado, foi fotografada seminua, desfigurada e teve tais imagens divulgadas na web. Uma vez denunciada a barbárie oficial, órgãos de imprensa passaram a reproduzir a notícia sem levar em conta a versão da travesti, quase que naturalizando o absurdo da situação.  
Não me interessam os motivos que levaram Verônica para a prisão. Também não me interessa que ela tenha se envolvido numa briga. Para os dois casos, a lei: ela deve ser investigada e punida com o máximo rigor previsto na nossa legislação. Nem mais, nem menos. Mas não se pode tolerar, aceitar ou compactuar com qualquer forma de violência e opressão praticada pelo aparelho oficial. O Estado não pode tratar cidadãos e cidadãs como se estivesse acima da lei! Ao agir como agiram, seja sob qual pretexto o tenham feito, os homens da lei deram as costas para as regras acordadas pela sociedade e pactuadas na constituição e impuseram a todos nós uma lei outra; paralela, oficiosa. Igualaram-se - ou superaram - o que há de mais marginal em nosso país.
A repercussão do caso na mídia nos primeiros dias também chama atenção. Primeiro, pela já exposta simpatia inicial ao discurso oficial, desprezando qualquer possibilidade de análise crítica dos fatos. Segundo, pela exposição de Verônica, ferida e sem roupas, como uma espécie de troféu, em textos que desconsideravam a identidade de gênero de Verônica, tratando-a com pronomes masculinos. Uma prática que parece legitimar o tratamento covarde e desumano recebido pela travesti. É como se fosse o Estado a dizer: "É assim que tratamos travestis negras", com a mídia a lhe dar tapinhas nas costas. E terceiro, por expor o assombroso silêncio que paira quando o assunto é a violência contra travestis e transexuais no Brasil.
Negra e travesti, Verônica Bolina é uma representante da parcela da população mais vulnerável à violência e aos crimes de ódio. Segundo o deputado Jean Wyllys, em texto postado no Facebook, "pesquisa sobre os direitos das trans negras no Brasil, publicada pela ONG internacional Global Rights, corrobora a realidade dessa população, impactada desproporcionalmente por diversas formas de violência física e sexual. Os dados da pesquisa foram apresentados durante uma audiência temática sobre os direitos das pessoas trans negras no Brasil diante na Comissão Inter-Americana de Direitos Humanos”.
O tratamento dado ao caso ajuda e entender os resultados da pesquisa. Exposta, humilhada e torturada, aos olhos da sociedade, Verônica não parece ninguém. É mais uma travesti negra a confirmar seu destino trágico. Como num filme que se repete e para o qual não se deseja imaginar um novo fim. 
Acontece que é muito perigoso escolher quem "merece" ser tratado dentro dos limites das leis, sem lembrar que a legislação é para todos - assim como também o são os direitos. Afinal, quando os direitos de um são violados, todos perdemos. E, nesse caso, o silêncio, a legitimação de uma prática policial criminosa, o deboche e a relativização demonstram que, pior do que deixarmos que a violação aconteça, nós ainda somos capazes de aprová-la e aplaudi-la. 
Triste da sociedade que acha aceitável que cidadãos recebam tratamento desigual do Estado. Primeira e segunda classes até podem funcionar nos aviões mas, na sociedade, são apenas a tradução da pouca civilidade e do descompromisso com o coletivo, traços de uma nação que parece insistir para se perpetuar excludente. 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Autópsia de Famosos: o buraco da bizarrice na TV é mais embaixo

Whitney e Michael: protagonistas de uma série bizarra na TV paga
Quando vi a chamada anunciando a exibição de um programa sobre a autópsia de famosos, fiz piada. A morbidez do tema, associada àquela que pode ser a mais invasiva das invasões de privacidade, fez com que eu me espantasse com a sanha dessa mídia de celebridades, sempre ávida por cavar mais fundo o buraco do poço. Não podia ser sério.
Mas era. E lá fui eu conferir...
Vi dois episódios de Autópsia de Famosos: sobre Whitney Houston e Michael Jackson. O programa dedicado à cantora eu vi no Discovery e o baseado no exame cadavérico do Rei do Pop, vi pelo YouTube. A produção é merecedora de todas as críticas do primeiro parágrafo. Como mérito (?) apenas a capacidade de trazer informações curiosas que, a meu ver, só servem para aplacar a sede de ardorosos fãs - dos astros e de fofocas.
Não dá pra ver um programa como esse e não pensar na doença desse nosso tempo louco. Não pode ser algo aceitável que dados da intimidade de alguém - ainda que famoso - sejam expostos em escala internacional depois da morte. É como se, de um modo cruel, a indústria do showbizz seguisse negando sossego e descanso eterno aos astros e estrelas que tanto importunou em vida. Um espetáculo sem fim, bizarro e sensacionalista.
Pensar na imensa quantidade de drogas ingeridas por Michael em sua última tentativa desesperada de dormir é assustador. Como também surpreende e choca saber que Whitney Houston, completamente entorpecida, mergulhou para a morte numa banheira de água escaldante; tão quente a ponto de lhe causar queimaduras na pele...
Duas mortes tristes, sem dúvida. Sozinhos e diante da possibilidade improvável do retorno ao estrelato, quando morreram, cada qual a seu modo, Whitney e Michael fugiam desse esquema gigantesco, que gruda nos astros e estrelas como parasitas, e segue lucrando em cima de seus cadáveres. 
Não dá pra não achar que o capitalismo foi longe demais quando a gente vê laudos de necropsia virarem show de TV. Mesmo quando esses laudos trazem informações de duas das maiores estrelas da música do século passado...

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Eu, Muka. E o meu blog...

Meu pai me chamou de Muka pela primeira vez depois de ver um cara, também chamado Murilo, revelar esse apelido num programa dominical comandado pela Xuxa. Era o "Bobeou, Dançou", exibido pela Globo há vinte e tantos anos.
Daquele domingo em diante, nunca mais meu pai me chamou de Murilo...
Depois que ele morreu, apenas alguns familiares mantiveram vivo o apelido dado pelo meu velho. E, com a chegada das redes sociais, a necessidade de um login original me vez adotar o codinome mais constantemente. Assim, assumi ser Muka no e-mail, no MSN e, tempos depois, no Instagram. E mais e mais gente passou a me chamar assim, independentemente do nível de intimidade existente em nossa relação.
Hoje, quase 10 anos depois de ter decidido ter um blog na internet para dar vazão às ideias e inspirações que não encontravam espaço na minha atividade profissional, lanço um novo blog. Um blog com um acervo de mais de dois mil textos publicados no meu primeiro blog, o B@belturbo, onde conquistei leitores, fiz alguns amigos, conheci outros blogueiros, fiz entrevistas com gente famosa e experimentei as dores e delícias de ser blogueiro até que o Facebook viesse e levasse todas as minhas ideias para a Timeline...
Com o Blog do Muka vai ser diferente. Minhas ideias terão sempre um lugar cativo aqui. Você também terá sempre um lugar especial aqui. E terei, a partir de agora, um espaço pra ser eu mesmo, com meu nome, minha cara, minhas ideias e minha identidade.
Sejam bem-vindos: o blog é meu, mas a casa é nossa! :)

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Eduardo: mais uma vítima do nosso esquecimento..

Eduardo: mais um "futuro bonito" que nunca vai chegar...
Eduardo de Jesus Ferreira tinha 10 anos. Passava 10 horas por dia no colégio, um CIEP de Olaria. Era filho de uma diarista. Sonhava com um futuro bonito e dizia à mãe que a amava várias vezes por dia.
Que tristeza ter de escrever esse texto conjugando todos os verbos no passado...
Eduardo foi mais uma triste vítima da tragédia da segurança pública de uma cidade que, em vez de extinguir abismos, apenas resolveu fingir que eles não mais existiam. Um Rio de lágrimas - e de sangue - que segue mais partido do que nunca.
Eduardo foi morto e vi no Twitter sua foto sem vida. Terrível, trágica, dolorosa. Estirado e ensanguentado como jamais deveriam aparecer nos jornais meninos de sua idade - sobretudo quando a absurda extinção de suas vidas decorresse de tamanha negligência. De tamanho descuido. De tão absurdo silêncio de todos nós para uma história que se repete à exaustão. Não exagero: na última década, no Rio de Janeiro, 50 crianças foram mortas por policiais em incursões tratadas como rotineiras pelo Estado.
O que se faz diante disso?
Nada.
A gente sofre, a gente se entristece. E vem um novo escândalo, vem uma nova manchete terrível; vem uma nova piada no whatsapp. 
E a gente esquece.
A gente esquece do Eduardo, esquece da dor incurável da mãe que estava se desdobrando para pagar cursos de inglês e informática pro garoto. A gente esquece do futuro bonito que ele nunca vai ter. Esquece de todas as contribuições que ele poderia vir a dar para ajudar a curar essa sociedade doente, covarde, assassina. Sim, a gente esquece que empurrou o policial para aquele tiro. A gente esquece que naturaliza, dia após dia, o inaceitável. A gente esquece que o escândalo seria muito maior se Eduardo de Jesus Ferreira morasse na Vieira Souto. A gente esquece que há lugares em que a polícia jamais entraria como entra no Complexo do Alemão. A gente esquece que vive num contexto em que o CEP determina como o cidadão vai ser tratado. E esquece que esse tratamento se desumaniza proporcionalmente à redução do valor do IPTU.
A gente se esquece porque é covarde. Porque se acostumou a achar que as coisas são assim. E porque não sabe como ou o quê fazer para alterá-las. 
Queremos alterá-las?
A gente se esquece porque é cômodo. Porque Eduardo, infelizmente, não foi o primeiro e não será o último. 
Quantos mais serão?
A gente se esquece porque favela é perigoso. Porque acha que - como ouvi dia desses - quem mora lá já sabe que o futuro pode nunca chegar.
E chegará?
A gente se esquece, sobretudo, porque vem esquecendo a cada dia mais o que significa a palavra humanidade.
Humanidade?

quarta-feira, 25 de março de 2015

90!

Com a serenidade de quem já podia experimentar, dia após dia, a graça de descobrir uma nova (co)existência, agradeceu. Agradeceu pela parceria, pela ternura, pelo cuidado, pelo feijão saboroso, pelo fim do Nescau com açúcar, pelas mãos dadas no teatro, pelas conversas serenas, pelos desabafos, pelas confissões. Agradeceu a confiança, os sorrisões, a doçura da voz a lhe despertar, os emoticons de beijo, coração e flores. Agradeceu pelas descobertas, pelos sonhos, pelos planos, pelos conselhos... 
E, mais que tudo, agradeceu por ter a prova de que, sim, todo o amor é sagrado. E pode ser, também, sereno.

segunda-feira, 16 de março de 2015

Um dia estranho

Manifestação com pauta difusa cedeu espaço para reivindicações absurdas

Acho que toda e qualquer manifestação realizada com o objetivo de cobrar direitos e serviços é válida. Do mesmo modo, também considero salutares as demonstrações coletivas que tenham o objetivo de pressionar governos - em qualquer nível - para, assim, lembrá-los que os interesses dos cidadãos devem ser considerados quando da tomada de decisões.
Embora as considere pouco efetivas, acho também pertinentes as manifestações coletivas contra a corrupção e a impunidade. E me explico: visto que ninguém se assume publicamente favorável a uma ou outra coisa, sair às ruas manifestando essa contrariedade parece clamar pelo óbvio; parece coisa de quem não consegue enxergar além do senso comum. Creio que manifestações dessa natureza carecem de uma pauta clara, de um objetivo comum. No momento atual, penso, a pauta para quem pretende combater esse combate é a da reforma política. E me incluo nesse grupo, vale dizer.
Acontece que as manifestações de ontem pareceram boiar num mar de senso comum. E, pior do que isso, quando se permitiram ir além desse pensamento mediano, tomaram caminhos assustadores. Não consigo conceber um cidadão de bem, ainda que incomodado com a atual situação do país, que se permita militar nas ruas ao lado de alguém com uma faixa onde se vê a suástica. Igualmente me intriga pensar nas "famílias inteiras, em clima de paz" dividindo a rua com pessoas que empunhavam cartazes onde se lia - inclusive num inglês constrangedor - clamores pela volta da ditadura militar. 
"Eram poucos", alguns dirão. Não importa, respondo. Ao dividir o mesmo espaço com gente assim, você valida esse discurso. Ao aceitar militar ao lado de quem defende pautas radicais, extremistas e ilegais, você caminha para se tornar mais um deles. Aliás, nas fotos e imagens de TV, nas estatísticas da polícia, "dos organizadores" e dos institutos de pesquisa, quem escolheu marchar ao lado de pessoas com tão deprimentes reivindicações já se tornou um deles. 
Por fim, lembram de um ditado popular sobre se misturar com porcos e comer farelo? Pois bem. Entre os "convocadores" dos protestos de ontem, estavam Silas Malafaia, Marco Feliciano e Jair Bolsonaro. Gente que, talvez, até traga algum orgulho para quem resolveu ganhar as ruas e assinar o cheque em branco em que se converteram essas passeatas sem foco. Mas, pra mim, esse é o tipo de gente que sempre estará do outro lado. 
Obrigado, mas do farelo deles eu só posso querer distância.

quarta-feira, 11 de março de 2015

O Brasil precisa amadurecer

Cinco meses depois das eleições, eleitores ainda se digladiam como se Dilma e Aécio
ainda estivessem disputando. E o país só perde com isso...
E nos últimos dias, reeditando um triste fenômeno que muita gente pode vivenciar durante os meses da última campanha eleitoral, as redes sociais voltaram a se transformar num campo de batalha. E não me utilizo de uma figura de linguagem; não se trata de uma metáfora, uma vez que a luta não se dá no campo ideológico. São ofensas, agressões, insultos e arranca-rabos de todos os graus. Tem de tudo, menos maturidade...
A cena política brasileira se converteu nos últimos tempos numa espécie de 8 ou 80 que, além de limitador, só tem empobrecido o diálogo e impedido o avanço do país - e do pensamento. E, pior do que isso: diante dessa polarização, os dois lados passaram a contar com defensores / torcedores apaixonados, que tratam o país como um grande campeonato de futebol; ignorando a premissa básica de que, nesse caso, todos os brasileiros deveriam lutar por um objetivo comum e que, assim sendo, a vitória não seria de eleitores do PT ou do PSDB, porque um Brasil melhor, de pé, será melhor para todos nós.
Atribuir a um partido a responsabilidade pelos males do país - sobretudo o mais grave deles, a corrupção - é, com boa vontade, ser desonesto. Desonesto com a história, com os fatos que a escreveram e continuam a escrevê-la e com aquilo que, se ainda não é, deveria ser do conhecimento de todos: não se pode estipular uma data de início da roubalheira em nosso país. Por quê? Porque aqui, infelizmente, sempre se roubou. E muito! Ou alguém se esquece que fomos uma colônia de exploração e que, portanto, o que aqui se obtinha não era aplicado em benefício do novo território e de seu povo? Se os barões contemporâneos mandam seus dólares por vias escusas para os paraísos fiscais, séculos atrás era o império a abrir a boca pra surrupiar as riquezas aqui extraídas. Não me parece estranho supor que essa lógica tenha se cristalizado e, repetida geração após geração, tenha acabado por parecer natural.
Ainda nessa perspectiva histórica, que tal se dermos um salto no tempo rumo a um passado menos remoto? O passado da ditadura militar. Censura ampla, geral e irrestrita; sindicatos e organizações privados de um funcionamento livre, imprensa amordaçada. É possível crer que não se roubava nessa época? É aceitável a ideia de que, num cenário em que sequer era fiscalizado pela imprensa e por outros organismos, o governo agia com retidão? Desculpem-me, mas pensar assim me parece inocência. Ou ignorância. Ou, reafirmo, desonestidade! E não me venham falar que o país era melhor naquele sombrio período em que os opositores eram mortos, desaparecidos, presos, expatriados, silenciados! Época em que, como vira e mexe lemos, a silenciada corrupção já levava muito.
Hoje, temos um país aberto, democrático. Uma imprensa livre - e questionável, claro. Avançamos nesses dois pontos mas, no terreno da política, a época ainda é a das cavernas. Enquanto parlamentares querem definir o conceito de família seguindo preceitos religiosos; enquanto há uma bancada da bala no parlamento; enquanto um deputado ofende mulheres, negros e homossexuais sem que nada lhe aconteça; enfim, enquanto tudo isso tomou de assalto os noticiários, Brasília foi virando uma espécie de pastiche de si mesma. O congresso, eleito para nos representar, não teve pudores de negar qualquer movimento favorável a maior participação popular nas tomadas de decisão. Congressistas também não tiveram vergonha de dizer não a um plebiscito que envolvesse a sociedade na construção de uma reforma política. Ou seja: em dois casos - e há outros - não houve a menor disposição em sequer disfarçar que os desejos da sociedade não lhes interessam. E a nós? 
Bem, nós nos calamos.
Nós vergonhosamente, covardemente e tristemente nos calamos!
Iniciado o segundo mandato de Dilma, as medidas impopulares vieram. Eram favas contadas, como sabiam - e defendiam - todos os economistas. Era o que havia por ser feito. Era o que Aécio também faria - e talvez, sob o PSDB, o país viria a experimentar um ajuste ainda mais rigoroso. 
Pois bem: era o que pedia o mercado. Era o que faria a oposição. Era o que teriam os eleitores do candidato tucano. Dilma fez. Resultado: o mercado, a oposição e os eleitores de Aécio se voltaram contra o governo. Setores da mídia, mais raivosos que qualquer partido de oposição, também se voltaram contra o governo. Não dizem, mas tá na cara! Tá nas manchetes, tá nas fotos, tá na cara dos colegas que emprestam seus corpos e vozes para que os donos da informação digam e defendam o que querem. O que querem pra si e o que querem nos fazer crer que também queremos. E nós?
Bem, alguns de nós bateram panelas.
Sim, alguns de nós, vergonhosamente, covardemente e ridiculamente batemos panelas!
Os jornais não dizem isso claramente, mas as panelas estridentes não ressoaram nas periferias. Talvez por lá estivessem todas cheias na noite do último domingo. Talvez as classes mais populares não tenham tantos motivos para protestar contra o governo. Talvez as classes mais populares tenham entendido que as eleições acabaram e que o momento é de trabalhar - governo e sociedade - para que o país entre novamente nos trilhos. Talvez as classes mais populares não engulam tão facilmente a ideia de que "nunca se roubou tanto no país" porque nos últimos anos, como indicam todos os índices, pela primeira vez em nossa história lhes tenha sido oferecido uma parte do bolo do crescimento da economia brasileira.
Agora, enquanto informam, jornais e TVs reforçam a existência de uma "grande manifestação" marcada para o próximo domingo, num explícito exercício de futurologia, uma vez que não se deveria adjetivar uma manifestação que ainda não se concretizou, ainda não ocorreu. Tempos estranhos...
É óbvio que o clima não é bom. É óbvio que a popularidade do governo está em xeque, sobretudo depois das tais mudanças impopulares - que não têm esse nome aleatoriamente. Mas também me parece óbvio que há um movimento oportunista que quer se valer disso para desestabilizar ainda mais o andamento do país; sim, porque desestabilizar um governo é comprometer o andamento do país. Mais que isso: esse movimento se aproveita da notória carência de formação ( e informação) política de grande parte do eleitorado.
O fato é que temos um sistema político viciado em corrupção e uma população que centraliza suas expectativas e cobranças no Executivo, sem dar a menor importância ao Legislativo. Depois, quando vem à tona um escândalo que apenas confirma aquilo de que todos sempre desconfiavam, a conta toda é jogada no Planalto. Talvez porque seja mais fácil. Talvez porque não se tenha cultura política para envolver toda a sociedade na fundação de um novo modelo. Talvez porque estejamos contaminados demais pelo imediatismo, por essa onda tão descartável; não serve, troca. E aí vai desde o celular até a presidência da república. Não sou a favor do "Fora, Dilma", não fui a favor do "Fora, Lula" e nem do "Fora, FHC". Democracia não é Lego, não dá pra agir montando e desmontando cenários. 
O Brasil precisa amadurecer muito e a conjuntura atual só reforça isso.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Xuxa na Record: o fim de uma era

Depois de dois anos de negociação, Xuxa mostra contrato assinado com a Record
A televisão brasileira, sobretudo a Rede Globo, foi forjada tendo como base o ‪#‎StarSystem‬ de Hollywood. Se lá os grandes astros e estrelas eram exclusivos dos grandes estúdios, por aqui a Globo cresceu segurando seus maiores nomes em longos contratos que os impediam de ser roubados pela concorrência. Salários polpudos, mesmo para aqueles que passavam longos períodos fora do ar, sem trabalhar. Sim, por muito tempo a Globo pagou caro para ter aqueles que considerava os melhores valores do mercado em seu elenco. Por isso, não dá pra imaginar Cid Moreira narrando o "Fala que eu te escuto", nem a Glória Maria fazendo um programa qualquer de viagens na Rede TV. Por isso a gente estranharia ver o Bial apresentar "A Fazenda", o Tarcísio Meira sendo vovô das órfãs de Chiquititas, no SBT, ou a Glória Pires interpretando Paulina e Paola num remake de A Usurpadora, na mesma emissora. Também por isso pareceria bizarro ver Roberto Carlos apresentar seu especial de fim de ano na TV Cultura. Todos são astros da Globo; e vale dizer que, não por acaso, "global" é um adjetivo que identifica o vínculo do artista com a emissora carioca.
Outros canais seguiram o exemplo dos artistas exclusivos e, nas vezes em que esqueceram de rezar pela cartilha, se arrependeram. Foi o que aconteceu ao SBT, quando perdeu Hebe para a Rede TV e acabou sendo criticado por virar as costas para uma de suas maiores estrelas. Também é por isso que ver a ‪#‎XuxaNaRecord‬ desperta tanta curiosidade, tanto estranhamento. 
Hebe sendo recepcionada na Rede TV,
depois de sair do SBT
De uns anos pra cá, a estratégia de ter numerosos artistas contratados por valores exorbitantes vem sendo revista tanto pela Globo quanto pelas demais emissoras. Os tempos são outros, bem mais difíceis. Aliás, de volta ao caso da Hebe, foi essa a razão que impediu Silvio Santos de mantê-la sob contrato com vencimentos considerados estelares. Sugeriu reduzir o salário, o staff de Hebe não aceitou e ela acabou assinando com a Rede TV - que viria, aliás, a atrasar o pagamento da contratada pouco depois. Com Xuxa o processo foi semelhante: salário alto e pouco retorno comercial e de audiência. E um agravante: a direção da Globo não via mais espaço para a loira na grade de programação. Assim sendo, a única saída foi mesmo a concorrência.
Em 2009, Gugu deixou o SBT e
assinou com a Record
A ida de Xuxa para a Record parece sinalizar para o fim definitivo da era em que o artista era a cara de uma emissora. Nem a saída de Gugu para a mesma Record, anos atrás, rendeu a mesma repercussão. E vale lembrar que, no SBT, ele era apontado como o sucessor natural de Silvio Santos. Talvez, o único paralelo com essa mudança de emissora da Rainha dos Baixinhos fosse uma eventual saída de Silvio Santos do SBT o que, sabemos, é impossível. 
A contratação de Xuxa pela Record, celebrada hoje, já desponta como uma das mais caras da história da televisão no Brasil. Foram muito raras as vezes em que um artista tão identificado com a emissora líder de audiência foi para a concorrência. E, no caso em questão, a despeito de ter permanecido na geladeira global ao longo do último ano,  Xuxa segue como um dos rostos mais identificados com a Globo, onde esteve por quase 30 anos. Desconfio que Boni e Roberto Marinho jamais concordariam com a saída de uma estrela desse patamar do cast do canal. E, a julgar pelo imenso barulho causado nas redes sociais hoje, acredito que a Record pode ter feito um grande negócio. O público, deu pra ver, segue fiel à estrela. Resta saber quais as outras mudanças que ela prepara para surpreender os fãs. Resta saber como o público vai reagir à mudança quando o novo programa de Xuxa estrear. E resta saber como a Globo vai se armar para enfrentar a ex-estrela... 

segunda-feira, 2 de março de 2015

Rio 450: que cidade estamos celebrando?

O "meu Rio" passa por aqui. É alegre, festeiro e bonito. Tem problemas. Mas é real...
Ontem, primeiro de março de 2015, o Rio de Janeiro completou 450 anos. Mas, ao menos na maior parte dos jornais e do noticiário da TV, o aniversário parecia ser apenas de parte da cidade. Sim, a Zona Sul foi celebrada como a mais perfeita tradução da carioquice; como se o Rio estivesse limitado aos contornos da orla, aos calçadões, monumentos e postais das praias, praças e avenidas com os IPTUs mais caros da capital fluminense.
Sobre o Rio de Padre Miguel, Bangu, Realengo e Campo Grande não vi palavra. Santa Cruz? Nada! Valqueire, Irajá, Vaz Lobo, Méier, Senador Vasconcellos, Jabour, Sulacap, Campinho, Cascadura, Praça Seca, Freguesia...todos igualmente esquecidos. Pareciam partes de um Rio que pouco, quase nada tem a comemorar. Isso sem falar na Coreia, no Alemão, em Costa Barros, Vila Kennedy, Acari, Cesarão, Rio das Pedras, Engenho Novo; áreas de uma cidade que segue partida e que, sabemos, realmente têm poucos motivos para qualquer celebração.
Os jornais e as emissoras de TV até se esforçam, vez ou outra, mas em episódios como esse fica evidente o desconhecimento e a distância que suas redações conservam do Rio real; que está afastado dos pontos turísticos, dos lucros exorbitantes das empreiteiras sempre tão interessadas em obras faraônicas, dos homens e mulheres sarados que lotam as praias de segunda a segunda. Na TV, em geral, periferia só aparece quando o assunto é violência. E, uma vez por ano, no carnaval; quando o restante da cidade parece se lembrar  de que é das comunidades mais populares que emerge a mais genuína das expressões da cultura popular: o samba.
Lembro de um episódio que foi muito marcante na minha formação. Faz uns 10 anos. Eu já trabalhava na TV e me surpreendi com uma manchete em letras garrafais que estampava a página de um grande jornal. A notícia era um tiroteio no Leblon, "à luz do dia". Tiroteios são sempre assustadores, claro; não se pode tomá-los com naturalidade. Mas a razão do meu espanto era o tom da matéria; como se fosse aquele um fato inadmissível não pela violência, não pelo uso indiscriminado das armas, mas única e exclusivamente pela localização do confronto. Dava a clara impressão de que, fosse na Rocinha, na Taquara, na Ilha do Governador ou em qualquer área menos valorizada, o tiroteio seria aceitável; normal, até. Mas ali, no Leblon, talvez a poucas quadras dos apartamentos dos donos do jornalão; ali, não!
Fiquei chocado! E nunca vi o jornal dar o mesmo destaque a qualquer episódio semelhante acontecido no subúrbio, na zona oeste ou em áreas "menos nobres"
do Rio. Claro: o Rio, para eles, sempre foi o que está além do túnel.
Mas o Rio de verdade resiste, sem filtros embelezadores, sem photoshop e sem sair nos jornais. Resiste apesar dos políticos, apesar da violência, apesar dos autos de resistência que encobrem o extermínio de uma geração inteira, apesar do trânsito caótico, apesar dos serviços que só pioram, apesar da intolerância de quem invade e destrói terreiros por não aceitar a coexistência de outras crenças, apesar do ódio homofóbico que não percebe a inequívoca vocação deste lugar para o amor, apesar das balas - e de algumas esperanças - perdidas, apesar dos sonhos negados pra quem vem - e vive - nas periferias, apesar da especulação imobiliária e apesar da eterna despoluição da Baía de Guanabara; apesar de tudo isso, o Rio resiste! O Rio segue sendo a capital da beleza e do caos, segue com 40 (e tantos) graus, segue sendo a mais maravilhosa dentre as maravilhosas cidades do mundo. O Rio segue sendo meu orgulho, minha casa e minha paixão.
Parabéns, Cidade Maravilhosa! E que os próximos 450 anos sejam melhores para os cariocas de todas as partes...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

60!

Falo de leveza, de uma vida sem sobressaltos, sem soluços. Sem aflições maiores, sem grandes angústias...
Falo de abraços aconchegantes, de olhares cheios de ternura, de beijos doces e quentes, de mãos trançadas de felicidade...
Falo de muita disposição para falar. E para ouvir. De vontade para aparar as arestas. De uma garra sem tamanho para acertar. E melhorar cada vez mais, dia após dia.
Já são 60. 
Lindos, claro. Mas que ainda soam muito pouco, quase nada...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Cenas tristes e marcantes de um carnaval...

Em Salvador, miséria dos cordeiros e descaso com a limpeza da cidade destoam do clima contagiante da capital da Axé Music...

Assumo: em matéria de carnaval, sou bígamo: amante dos festejos cariocas e apaixonado pela farra baiana. E me divido doloridamente entre essas duas cidades - não por acaso, as duas de que mais gosto no país. Passo o pré-carnaval no Rio e o carnaval oficial na capital baiana. Na Cidade Maravilhosa, vou de bloco em bloco pra aproveitar a alegria de um carnaval de rua que a cada ano se torna mais pujante; mais frenético, mais festivo. E em Salvador, vou atrás dos trios de Ivete, Claudinha e Daniela, pulando como se não houvesse amanhã; como se as pernas não me fossem enviar a conta no dia seguinte. Afinal, no dia seguinte, lá vou eu pro circuito novamente, percorrer os seis quilômetros de felicidade e êxtase que separam a Barra de Ondina. Sem contar as noites em que a farra ainda se estende aos camarotes...
Foi assim em 2015: dividi meu amor, minha energia e minha alegria entre essas duas cidades. Mas o prazer de poder me divertir em mais um carnaval não ofuscou o choque ao perceber a miséria impressa nos rostos, nos olhos e nos pés descalços de muitos dos cordeiros dos blocos das cantoras baianas. Pra quem não sabe, cordeiros são os homens e mulheres - das mais variadas idades - que carregam a corda responsável por separar quem pagou pelos abadás do público que não pagou, a chamada pipoca. É deles a responsabilidade de impedir que o bloco seja invadido por quem não pagou para estar ali, perto do trio elétrico. De alguns deles ouvi que sua função é "nos proteger". "Estou aqui pra cuidar de você, brother", me disse um, provavelmente sem se dar conta de que há quem cuide dele. Dentro dos blocos de Salvador, os cordeiros expressam o maior contingente de negros, o que me faz lembrar que, sim, infelizmente a pobreza brasileira ainda tem cor. Negros de abadá? Poucos, muito poucos...
Não falo da miséria dos cordeiros por ter ficado assustado ao vê-la; como muitos representantes da tal classe média tantas vezes ficam. Não acho que a miséria deva ser escondida. Falo porque me assombro que ela exista numa festa que movimenta tantos milhões de reais. É um deboche com a sensibilidade de qualquer pessoa que se preocupe minimamente com o próximo perceber que há gente faturando alto que sequer se importa se a cordeira está descalça caminhando sob o asfalto quente por seis quilômetros. E mais aviltante ainda é saber que ela vai receber apenas alguns trocados por um sacrifício tão grande...
Numa festa feita por baianos para turistas, um outro momento ficou gravado na minha memória. Foi na segunda-feira de carnaval, quando o circuito ficou engarrafado e o atraso no percurso impediu que os foliões chegassem à área com banheiros químicos - em número tão insuficiente em Salvador como no Rio. Fomos para o Morro do Gato e a cena era terrível: num barranco lamacento, homens e mulheres urinavam, produzindo um barro fedido, eu escorria morro abaixo, encharcando tênis, sandálias, sapatos, meias. Sem pudor. Sem repressão. Sem drama de consciência. Éramos selvagens emporcalhando a cidade sem a menor culpa, simplesmente porque aquela era a única alternativa possível. Certamente esse detalhe sanitário foi esquecido por ACM Neto, prefeito que vem sendo muito elogiado pelos baianos por moralizar alguns serviços públicos e cuidar de obras importantes para a cidade. Não dá para uma cidade linda como Salvador se submeter a um ritual tão sujo, insustentável e indigno de uma das maiores festas do mundo! Não dá pra naturalizarmos um comportamento tão primário em 2015. Não dá pra acharmos natural que o espaço da avenida continue a ser loteado por camarotes impedindo, assim, que mais banheiros químicos sejam disponibilizados para a população e para os turistas. A festa é bonita demais pra permitir erros tão grotescos.
E também não dá - por mais que muitos se divirtam - para que os blocos continuem a cobrar tão caro pelos abadás e sigam tratando os cordeiros de forma tão aviltante e desumana. A seguir assim, a festa popular mais tradicional da Bahia - e uma das mais tradicionais do Brasil - vai caminhar a passos largos para se tornar cada vez menos...popular. E justamente por desprezar tanto a parcela mais genuinamente popular da folia...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Meu encontro com a intolerância em forma de mulher...

Não sei em que momento a classe média brasileira optou por ser a classe medíocre; cheia de discursos preconceituosos, repleta de ódio e pautada pela intolerância...


Meus amigos mais próximos sabem que costumo ser um cara ponderado. Muito ponderado, inclusive. Penso bastante antes de tomar decisões, penso no quê e em como falar, penso, penso, penso. Peso os prós e contras do que digo e do que faço. Não é algo calculado; nunca foi: é da minha essência. Poderia atribuir isso à tal balança, ícone do meu signo - libra - mas gosto mais de pensar que essa busca por equilíbrio é o caminho que venho trilhando, a cada dia, para ser um alguém melhor. Melhor para o mundo, para as outras pessoas e pra mim mesmo.
Raramente discuto. Raramente bato boca com alguém. Ontem, no entanto, a ponderação e essa busca pelo equilíbrio não foram suficientes para evitar que isso acontecesse. Foi no condomínio em que moro; na piscina aquecida - cujas águas, aliás, diante do calor desse verão, nem têm precisado ser artificialmente aquecidas.
Entrei na piscina e uma senhora - que também não estava aquecida e, sim, esquentadinha demais - gritava com o guardião. Ela se queixava aos berros do fato de uma jovem visitante estar dentro d'água usando um short; o que é vedado pelo regimento do condomínio. Eram pérolas como: "Eu pago isso aqui e cumpro as regras, por que uma visitante não tem que cumprir?" e "É o seu papel mandar ela (sic) tirar, você que é o 'piscineiro', eu sou moradora, não tenho que ficar me indispondo", esbravejava, como se fosse uma senhora feudal e o funcionário do condomínio, um seu escravo.
Respirei fundo quando a menina, de uns 16, 17 anos, tirou o short e continuou na água. Estava claro que não havia nenhuma intenção de desrespeitar o regimento: ela apenas não tinha sido comunicada sobre as regras para frequentadores da piscina. A moradora - que, durante a palestra, fazia questão de frisar sua condição de moradora, numa tentativa vã de menosprezar a jovem visitante - seguiu fazendo seus exercícios de hidroginástica e achei que a tarde de domingo voltaria ao curso normal...
Estava errado. O guardião da piscina precisou ir ao banheiro e um outro veio substituí-lo.  Esse outro guardião a moradora fez questão de tratar com uma certa simpatia; como se agora fosse a senhora de engenho a lidar com um capataz de confiança. E iniciou a ladainha, aos gritos, para voltar a constranger as jovens e a infernizar minhas pretensões de um fim de tarde relaxante. Foi quando se deu o seguinte diálogo:
- Mas por que você não está na piscina externa?
- Porque ela foi interditada agorinha.
- E por quê? - quis saber a mulher.
- Porque um morador fez as necessidades dentro.
- Foi aquele doente de novo?
Aí meu estômago embrulhou. O "doente" é um morador com deficiência. Eu tinha ficado sabendo do incidente pouco antes, quando decidi, então, usar a piscina aquecida. O jovem, com uns vinte e poucos anos, não tem controle sobre os músculos. Vai à piscina acompanhado da mãe. E, por conta dessa limitação, acabou sujando a água.
Ignorando completamente toda essa situação e todo e qualquer sentimento semelhante ao de compreensão, a mulher prosseguiu:
- Às vezes eu tô aqui, fazendo a minha aula de hidro, e ela traz ele pra cá! Bota dentro da piscina! E acha que tá certa! Diz que tem uma lei que garante o direito dele! Um absurdo! Ele tem quase trinta anos, sabe? Ele tem direito? Então ela tem é que levar uma multa quando isso acontecer! Prejudica todo mundo que paga pra ter acesso à piscina!
À essa altura eu já estava fora da piscina. Não suportei testemunhar esse ataque extremo do que há de mais abjeto no ser humano. Não suportei ver ali, diante do meu nariz, uma espécie de materialização daquelas colunas idiotas e cheias de preconceitos que andaram povoando as páginas dos sites e dos jornais dias atrás. Não suportei tanto desrespeito, tanto desamor, tanta grosseria. Não suportei ver que, em 2015, há gente parecendo mais desumana que qualquer homem das cavernas. Já vestido, fora da piscina, olhei pra ela e disse, no tom mais baixo que consegui utilizar (e era alto!):
- Quando a senhora quiser reclamar, por favor, procure a administração do condomínio.
Cega e idiota, como costumam ser todos os que compactuam com pensamentos tão tacanhos, ela achou que eu estava concordando com seu discurso:
- Pois é, meu amigo. É que não tem adiantado.
- Mas é lá que a senhora deve ir. Porque o seu direito de reclamar termina onde começa o meu direito de vir pra cá aproveitar uma tarde relaxante na piscina. E aqui, gritando desse jeito, a senhora estragou a tarde de todo mundo. Tá sendo desagradável...
- Você é morador? - ela devolveu, também tentando me desqualificar.
- Sou e tenho o direito de frequentar isso aqui sem ouvir ninguém fazendo escândalo. Falando do rapaz deficiente como você falou, com um discurso cheio de preconceito babaca!
Dei as costas, já de saída.
- Você é um mal educado! Falou palavrão!
Voltei:
- Mal educada e preconceituosa é você! Babaca não é palavrão, mas todo preconceito é babaca sim!
Saí a tempo de ver o guardião da piscina piscar o olho e sorrir pra mim; aliviado por se sentir defendido. Também houve tempo de escutar as palmas das meninas que estavam sendo metralhadas verbalmente por aquele patético exemplar de uma elite que recrimina e discrimina as diferenças; de uma elite velha e imoral, que acha que seu dinheiro paga tudo e que, por isso, deve ter todos os privilégios de que sempre pode usufruir. Aquela mulher, achando-se uma espécie de socialite da Lapa, enfurnada no seu "Condomínio Club" diz muito do Brasil. Diz muito do que vemos na TV, lemos nos jornais e na internet. Diz, também, muito sobre quem se acha melhor pelo que tem e não pelo que é. Humilhando as meninas, o guardião da piscina, o jovem deficiente e sua mãe - que sequer estavam lá para que pudessem se defender - aquela mulher jogou na minha cara o que há de pior e mais triste na nossa sociedade; jogou na minha cara que parte considerável da classe média brasileira optou por ser, na verdade, uma classe medíocre.
Saí da piscina nervoso, boca seca. Mas estava bem cinco minutos depois, cercado de amigos e rindo. 
Leve, como sou e como acho que a vida deve ser. E aprendi que não dá pra tolerar intolerância. E que todos que pensam num mundo mais plural, comprometido com um ideal de sociedade mais justa e menos desigual não podem se calar diante dessas manifestações torpes do que pode haver de mais desumano. Não fiz isso apenas pelas meninas, pelo guardião da piscina ou pelo menino com deficiência; fiz por mim. Vê-los humilhados me fez mal. E acho que só assim, sentindo uns as dores dos outros, poderemos, unidos, materializar uma outra forma de existir em sociedade.
Meu domingo seguiu. Ela, quando a deixei, continuava só na piscina. Sozinha e amarga, destilando ódio e rancor. A continuar assim, vai acabar se afogando na própria desumanidade...