quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Salto, preconceito e cotas...

No Salto de ontem, dia 25, o tema era a lei 10.639, que torna obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana nas escolas. Nós discutíamos a questão relacionada ao Ensino Fundamental (que, para a galera do 'meu tempo', corresponde ao primário e o ginásio). Eis que começam a pipocar perguntas sobre o sistema que garante cotas para o ingresso de estudantes negros nas universidades públicas brasileiras. Numa das perguntas, uma frase me chamou a atenção:
- "Não seria essa uma forma de gerar ainda mais preconceito"?
O debate pegou fogo e uma professora de Salvador - uma das convidadas do programa - fez um lindo e emocionado discurso sobre a (histórica) desigualdade racial no Brasil. Não era o meu papel, mas deixei transparecer - ainda que de leve - a minha opinião sobre o tema. Sou a favor das cotas. Acho justo que o governo tenha começado a reparar uma história de descaso, desrespeito e desconsideração com a população negra, cerca da metade da população do nosso país. Negros que nunca tiveram chance de ingressar na universidade, que viram reduzidas as oportunidades de ascenção social, que tiveram limitadas as suas chances de conseguir bons postos no mercado de trabalho. Negros tratados - por muito tempo - como cidadãos de segunda categoria. Apesar de terem dado tantas e tão importantes contribuições para a construção da nossa nação.
Sou sensível ao argumento de que as cotas não resolvem esses problemas todos. Mas, por outro lado, esse discurso me parece fortalecer um ideal preconceituoso, segundo o qual nada seria o bastante para resolver a situação e, assim, se tudo é tão difícil, vamos deixar tudo como está! Não, isso não pode! E essa geração de jovens estudantes negros, em idade de prestar vestibular? Vamos continuar negando a eles tantas oportunidades? Vamos continuar deixando os estacionamentos de nossas universidades públicas lotados de carrões? Vamos permitir que mais esses milhares de jovens fiquem à margem de tudo de bom que a sociedade lhes poderia oferecer?
Não, não podemos! Por isso, defendo as cotas. Porque defendo, também, que um dia elas não existam mais. E que, se e quando esse dia chegar, teremos todos a certeza de termos construído uma sociedade mais justa, mais fraterna e, de fato, mais democrática no trato com seus cidadãos. Brancos, pretos, vermelhos, amarelos ou de que cor quer que sejam.

3 comentários:

  1. Prof. Eduardo Homem27 de outubro de 2006 19:43

    Caro Murilo, muito oportuna a mediação do programa. Imparcialidade 100%, não foi possível. Acabei de criar uma comunidade para o programa: http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=22627511
    Quando ao quesito formação de professores, acho interessante que neste semestre a Uerj/ppf lançou, creio q por força da lei, uma eletiva de história da África.

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  2. Edu, brigadão pelo elogio.
    E já tô dentro da comunidade no orkut...
    Abração!

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  3. Murilo,
    Gostei muito do seu texto!
    Inclusive passei para o Denilson, meu marido, pois ele é editor de educação num jornal eletrônico: www.fazendomedia.com.
    Passe lá e veja o que acha.
    Tomei a liberdade de repassar seu email para ele, pois ele vai fazer um convite à você.
    Beijão com saudades
    Lu

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