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domingo, 11 de maio de 2008

Será que a mídia nos deixou mais cruéis?

"Chorar, muitas vezes, soa a falsidade", diz a mãe de Isabella, acusada de frieza em meio à maior tragédia de sua vida...

Ana Carolina Oliveira, a mãe da menina Isabella, quebrou o silêncio no Dia das Mães, no "Fantástico". Mais do que analisar a entrevista, quero aqui falar de algo que me angustiou bastante ao longo desses trinta e poucos dias de vasta cobertura do caso: o julgamento à mãe da menina.
Sim, viciados que estamos em mídia, passamos a estranhar o silêncio da mãe de Isabella. Mais, passamos a criticá-la por ir à missa do Padre Marcelo, por falar com Xuxa e Ivete Sangalo, por aparecer na televisão batendo palmas sob o comando do padre-cantor. Ouvi por diversas vezes que a mãe da menina era "fria demais" e que "devia ter alguma coisa errada nessa história".
Sempre rebati essa análise burocrática dos fatos. Ana Carolina Oliveira é jovem, foi mãe muito cedo e talvez sequer tenha compreendido a dimensão da tragédia que se abateu sobre sua vida. Algo que ela mesma confirmou hoje, durante a conversa com Patrícia Poeta. Julgá-la por aparecer em público serena, sem o rosto desfigurado pela dor de perder a filha, a mim parece algo covarde e sem sentido. Até porque, chorar é o que mais a madrasta de Isabella, Anna Carolina Jatobá, fez durante entrevista dada ao mesmo programa. E não vi ninguém acreditar que se tratavam de lágrimas sinceras...
A entrevista, bem produzida, teve senões. Deslizes aqui e ali - e me refiro à condução, não ao desempenho da entrevistada. Mas mesmo esses deslizes - que alguns classificam como tentativa de fazer da conversa um espetáculo - são, ao menos para mim, plenamente justificáveis. Mesmo para quem trabalha com jornalismo - e a equipe do "Fantástico" é repleta de excelentes profissionais - tratar esse tema é um desafio. Delicado demais, pesado demais. Triste demais. Por isso, acho louvável a postura de Patrícia Poeta e louvável o "furo" do "Show da Vida" - sim, não nos esqueçamos que o que vale é sair na frente da concorrência.
Mas, sobretudo, valeu para lembrar aos que julgaram a mãe de Isabella como fria que nem sempre o que parece é. Para lembrá-los de que cada um processa vitórias e derrotas de um jeito e que, mesmo na hora de tamanho sofrimento, há diferenças entre todos nós...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Ainda sobre a sede de justiça...

Ver estampadas em sites e jornais as fotos da madrasta de Isabella se derramando em lágrimas em muitos desperta um prazer; a certeza do sofrimento de alguém que, segundo a polícia, foi capaz de algo tão covarde e violento contra a garotinha. Vê-la sofrer, acuada por flashes e por populares que transformam em gritos o horror com o crime, dá aos que já têm em mente a condenação o prazer de que a madrasta já começa a pagar pelos atos que o inquérito aponta que ela tenha cometeu.
É esse prazer que se ouve nas rodinhas de bares e nas bancas de jornais, nessa manhã de outono em que Anna Carolina Jatobá acordou numa cela, depois de dormir sobre um pedaço de papelão...
Os mais ponderados, e eu me incluo nesse time, olham para o choro da madrasta com um certo desconforto. Em mente, mais dúvidas que certezas. E perguntas que parecem não ter resposta: será? E o que pode ter levado alguém a cometer tamanha atrocidade?

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Nunca será!!!

"Meninos, eu vi..."
Superpop. Luciana Gimenez diante do telão onde são exibidas as imagens da prisão do casal Nardoni. Ela ensaia algumas frases de (de)feito: "Muita calma nessa hora"; "Não se pode fazer justiça com as próprias mãos, embora seja bom (???)", e etc. Num dado momento, policiais vestidos de preto surgem na tela. Sem pestanejar, a morena sapeca: "Aí está a Tropa de Elite!"
Pede pra sair, Luciana! Os policiais são, na verdade, do Grupamento de Operações Especiais (GOE). Ou você achou alguém ali parecido com o Capitão Nascimento???
Felizmente, alguém logo corrigiu a mãe do Lucas Jagger pelo ponto eletrônico...

Do clamor por justiça...

É impressionante a sede de justiça que o caso Isabella Nardoni acabou despertando na população! Vendo as imagens das pessoas paradas, gritando em frente ao prédio de onde o casal saiu para a prisão, fiquei pensando como seria o país se esse clamor fosse mais constante...
Já pensaram como seria se a cobrança por justiça também tivesse se manisfestado à época do desabamento do Palace II, construído com areia de praia por um deputado que ficou praticamente impune? E se os clamores se tivessem feito presentes na madrugada de ontem, quando o cidadão apontado como mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang -condenado à pena máxima no primeiro julgamento - foi surpreendentemente absolvido, como seria? Como seria se o povo se mostrasse verdadeiramente indignado diante dos desmandos de homens públicos que tantas e tantas vezes enlameiam a nossa jovem democracia?
Certamente seria um Brasil diferente. De brasileiros diferentes...
É claro que o assassinato da Isabella choca toda uma população. Foi dos crimes mais bárbaros de que já tive notícia. Mas essa indignação que nos paraliza diante da TV para acompanhar o trajeto dos réus até a prisão também pode - e eu acredito nisso - acabar sendo o principal incentivo para que todos nós nos sintamos convidados a nos mover e para que desse movimento, surja um país melhor.

sábado, 26 de abril de 2008

Da série: "a luz no fim do túnel é um trem vindo pra cá..." 5

Comercial na Rede Record. Entre uma infinidade de anunciantes - reflexo do tempo de Ibope gordo - entra a chamada para uma das atrações da casa, o "Domingo Espetacular". Entre outras matérias, o locutor anuncia: "todos os detalhes da reconstituição do caso Isabella".
Fala sério! Amanhã, pelo que estou vendo, será um excelente dia para não se ligar a TV! Já posso imaginar o Gugu, no "Domingo Legal", bradando um "olhaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa a boneca caindo da janelaaaaaaaa!". Sem falar no Faustão dizendo que "o assassino é um monstro tanto no pessoal quanto no profissional"...
Vai ser duro...ô se vai!!!

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Desventuras em série...

Os deslizes na cobertura do caso da menina Isabella Nardoni têm sido freqüentes. E, em alguns casos, fica claro que, mais do que a qualidade da informação, o que está em jogo são os famigerados pontos (ou décimos de pontos) no Ibope...


Hoje cedo, na academia, vi da esteira que o "Hoje em Dia", da Record, exibia uma entrevista com o promotor do caso. Depois, na hora do almoço, zapeando, vi que a mesma Record dispunha de repórteres posicionados na frente da casa do avô de Isabella, na porta da delegacia e sabe lá Deus onde mais...
O verdadeiro "festival Isabella" na Record me fez notar que continua, e a todo vapor, a exploração desmedida do caso da menina Isabella em algumas emissoras de televisão. À exceção da Globo, que parece de longe ser a mais preocupada em fazer um trabalho sério entre as redes comerciais, é comum encontrarmos debates requentados, matérias reprisadas, opiniões polêmicas e excessos de demagogia a toda hora do dia e da noite, nos mais variados programas e horários.
Na Band, a falação sobre o crime - bárbaro, sem dúvida - também segue pautando vários programas. Na Rede TV!, Sônia Abrão, Marcelo Rezende e Luciana Gimenez não me convencem de forma alguma de que estão realmente empenhados numa cobertura séria do caso. Sem contar que eles - e tantos outros - têm enchido muita lingüiça! Afinal: será que os repórteres que passam o dia na frente da delegacia têm - o tempo todo - novidades para dizer ao telespectador? Claro que não! E é nesse insano movimento de vender uma agilidade que não existe e, assim, dar ao espectador a sensação de que realizam uma cobertura em tempo integral, que essas redes, em diversos momentos, estão se perdendo...
Vejo isso com tristeza e indignação. Como cidadão e como profissional. É lamentável que parte da mídia se valha de uma história tão triste numa guerra covarde para pontuar bem no Ibope e furar a concorrência. Essa é uma conduta que desrespeita familiares da menina, indiciados, familiares dos indiciados e, também, espectadores.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Bom exemplo...

Ainda sobre o mesmo assunto do post anterior, acho bacana citar um exemplo de cobertura bem feita do caso da menina Isabella Nardoni: a do "Jornal das Dez", da Globonews. Com matérias bem feitas, sem rame-rame e sem encher lingüiça pra prender a atenção do telespectador, André Trigueiro e Mônica Waldvogel comandam os trabalhos sem afetação, sem escorregar no sensacionalismo e, de quebra, ainda realizam boas entrevistas em estúdio, que ampliam o foco das discussões e levam a história para além do maniqueísmo que impera em (boa) parte da mídia que trata do assunto.
A explicação para o acerto é simples: além, é claro, do talento da equipe; num canal fechado não existe a pressão pela audiência em tempo real e, com isso, não há motivo para nivelar (por baixo) os trabalhos para brigar (e derrubar) a concorrência.
Bom para o assinante que, afinal, paga para ter uma informação mais elaborada.

O mais triste e real dos reality-shows da TV brasileira...

Logo cedo, acordei e vi na TV o fim do "Mais você". Com tom grave, Ana Maria Braga se despedia dos convidados e dos telespectadores e justificava a não-apresentação do "conteúdo próprio" do programa. Na hora, percebi que mais uma edição do matinal da Rede Globo tinha sido integralmente dedicada ao caso da menina Isabella.
Em seguida, o "Globo Notícia" entrou no ar e Sandra Annenberg me fez entender as cenas do capítulo de hoje desse caso que a mídia transformou em novela: os principais suspeitos do assassinato da garota iriam sair de casa para depor. As imagens já deixavam claro o investimento na cobertura: tomadas de helicóptero e vários repórteres mobilizados para mostrar o exato momento em que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá deixariam a casa rumo à delegacia.
Migrei para a concorrência e, numa rápida passagem pela Rede TV!, vi Olga Bongiovanni com o mesmo tom grave da loira concorrente, dizendo que torcia para não precisar noticiar que o pai e a madrasta de Isabella são os responsáveis pela morte da menina. Em seguida, entra um VT com uma espécie de "comovente homenagem" ao aniversário de Isabella, que seria comemorado hoje. Foi demais pra mim e optei por mudar de canal. Sem contar que é impressionante a capacidade da Rede TV! de errar feio. E quase sempre...
Na Record, que tem liderado a disputa pelo Ibope nas manhãs desde que o caso eclodiu, o "Hoje em dia" também deu adeus ao habitual conteúdo para manter o telespectador informado de todos os passos do casal Nardoni. Britto Jr, um dos apresentadores da "revista eletrônica matinal", chamava repórteres o tempo todo e fazia questão de demonstrar que as "novidades" do caso teriam total prioridade no programa. Novidades que, no entanto, eram raras e obrigaram o programa a exibir à exaustão imagens de reportagens antigas sobre o caso.
Em suma: essa foi uma manhã em que ficou claro que o covarde assassinato de uma menina virou arma da cada vez mais acirrada guerra pela audiência entre as emissoras de televisão. É claro que o caso mobiliza a atenção dos espectadores e que todos querem ser informados dos passos da polícia rumo ao desfecho dessa triste história. Mas, ao menos pra mim, também é claro que as emissoras de televisão poderiam cumprir esse papel de maneira mais serena; sem que os passos da ivnestigação parecessem novos capítulos de uma novela; sem que a opinião pública fosse convidada, a todo o instante, a "dar uma espiadinha" nesse que, até o momento, tem sido uma espécie de reality show transmitido em pool pelas redes televisivas. E, principalmente, sem que tantos e tão diversos programas e jornalistas caíssem na tentação de mandar o casal de suspeitos para o paredão da vida real.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Uma história que choca cada vez mais...

No fim da tarde, a Folha soltou uma bomba em seu site, que logo se tornou a notícia mais lida do dia. No olho de um furacão onde todos querem ser responsáveis pelo grande furo, ninguém repercutiu o que a Folha publicou. Sinal de prudência ou indício de que, mesmo os editores, estão chocados com a possibilidade de ver configurar-se em verdade o que ao menos até agora soava como suposição?
Fiquei impressionado com a notícia, verdadeiramente chocado. E, vez por outra, acabo pensando que não importa a resposta, não importa a justificativa - que, seja qual for e venha de quem venha, será sempre insuficiente. Nada importa. O que importa é que um criança inocente foi brutalmente assassinada. E nada, nem mesmo a descoberta do(s) autor(es) do crime, mudará o trágico fim da história de uma linda princesinha chamada Isabella...

domingo, 13 de abril de 2008

Sobre o caso Isabella...

O caso da menina Isabella é das coisas mais aviltantes de que já tive notícia. E igualmente aviltante tem sido o comportamento de algumas emissoras de televisão que insistem em explorar o assunto de forma sensacionalista, novelesca e, com isso, gastam minutos e mais minutos de sua programação sem que nada novo seja somado ao arsenal de informações de que o público já dispõe.
O Fantástico de ontem, por exemplo, dedicou quase dois blocos única e exclusivamente à tragédia. De novo e interessante, no entanto, só as entrevistas com a tia de Isabella e com o desembargador que concedeu a liberdade ao pai e à madrasta da menina. Só! No mais, até uma retrospectiva com os principais fatos da semana foi levada ao ar.
Na Record e na Band a coisa não tem sido nada diferente. Na Rede TV!, abaixo da crítica nessa cobertura, até Marcelo Rezende já fez as vezes de perito.
Fica a certeza de que o compromisso, cada vez mais, é com a audiência.
E também fica a certeza de que quase todos os editores tiveram a mesma "idéia genial": a de terminar todas as matérias sobre o caso com imagens de Isabella sorrindo. Precisa disso?