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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O dia em que ouvi as histórias e canções de Bibi Ferreira...

No espetáculo, Bibi Ferreira canta em cinco idiomas, emociona e diverte a plateia
Quando surge no palco caminhando vagarosamente ao som de "Malandragem" - canção eternizada na voz de Cássia Eller, na qual ela questiona se ainda é uma garotinha - Bibi Ferreira bota a plateia no bolso. Ovacionada, dona da cena, a atriz, do alto de seus noventa anos, demonstra, desde o primeiro instante que olha para a vida - e para si mesma - com humor.
Humor acido, quando diz que no século dezessete tinha "treze ou catorze anos". Humor ácido utilizado novamente quando uma espectadora grita o ano em que uma de suas peças esteve em cartaz e, de primeira, Bibi devolve: "Você sabe a data? Mas essa coisa de data compromete a gente...", para risadaria geral.
Em "Bibi, Histórias & Canções", o público é conduzido por um passeio pela carreira dessa que é uma das maiores estrelas do teatro nacional. Se não for a maior, Bibi é a mais versátil: atua, canta, dirige; tudo com maestria exemplar! Nesse espetáculo em que passeia por épocas, países e gêneros diferentes, a atriz/cantora também navega por cinco idiomas: canta em inglês, espanhol, italiano e francês, além do português, língua materna. Forjada na escola dos palcos, a estrela tem pleno domínio de cena e demonstra que o tempo não lhe roubou o frescor. Nem no canto e nem no humor. Graciosa, canta temas de musicais americanos que despertaram seu encanto por Hollywood. Emociona ao unir canções de Elizeth Cardoso num medley que remete aos anos de ouro do rádio brasileiro. Seduz ao som dos tangos argentinos, apontados como herança musical da família. E arranca gargalhadas ao cantar árias consagradas com letras de clássicos da MPB. Tudo para voltar a emocionar logo em seguida, interpretando trecho de um de seus maiores sucessos, "Gota d'água". Outra ovação. Sem falar em Piaff, trunfo estrategicamente alocado no fim do roteiro.
Saí do teatro contente, leve. Que bom ver Bibi em cena! Que bom rir e me emocionar com as histórias e canções dessa estrela primeira da nossa arte! Bibi é o teatro brasileiro em sua melhor expressão, é o Brasil de que mais podemos nos orgulhar, é a vitória do talento, do dom, do saber ser e fazer. Ela não parece atriz: é. Das maiores! Não parece cantora: é, das mais hábeis ao interpretar. Não parece jovem, mas brinca em cena. Dá até pra pensar que, de algum jeito, Bibi Ferreira tem mesmo treze ou catorze anos...


domingo, 27 de junho de 2010

Em 'Hiperativo', Paulo Gustavo confirma hipertalento...

Carismático, ator se firma em peça baseada única e exclusivamente em seu talento para contar causos engraçados. E bota engraçados nisso!!!
São poucos os atores que conseguem manter o público nas mãos durante um espetáculo totalmente baseado na falação. E é exatamente esse o mérito de Hiperativo, stand  up estrelado por Paulo Gustavo. Baseado numa frenética contação de causos, o espetáculo diverte a plateia e mostra que o ator, consagrado no monólogo Minha mãe é uma peça, tem talento para muito mais que um título.
Debochando de tudo, de todos - e de si mesmo - Paulo Gustavo faz graça com as "limitações" do gênero stand up, debocha das grandes - e pretensiosas - aberturas de shows, e conta uma série de histórias protagonizadas por ele, por amigos e por familiares. Ao ouvir frases como "Quando a pessoa vem feia, Deus indeniza", dita para justificar sua "beleza-depende", o ator conquista a plateia. Há momentos em que a risadaria é tão grande que, fanfarrão como ele só, o ator interpela: "Cala a boca, gente! Deixa eu falar!". E o público explode em nova gargalhada...
As histórias protagonizadas pela (já famosa0 mãe de Paulo Gustavo são geniais. E reiteram a genialidade desse ator que soube tirar da máxima de que "as mães são todas iguais" matéria-prima riquíssima, capaz de produzir tiradas de interesse universal. Não há quem não ria no teatro ao ouvir as aventuras dessa mãe um tanto neurótica, que liga para o filho e não deixa que ele pronuncia uma única palavra durante todo o tempo do telefonema.
E, a julgar pela quantidade de histórias que conta - e pela impressionante velocidade com a qual emenda umas às outras - Paulo Gustavo herdou esse dom: é um falastrão de primeiríssima qualidade! E dos mais engraçados!!!
Recomendo!

quinta-feira, 25 de março de 2010

Breve no Salto: Sérgio Britto e Barbara Heliodora...

Repórter e fã: clique com Sérgio Britto depois da entrevista...
Ontem eu tive um daqueles dias de ouro na carreira de um jornalista: entrevistei dois grandes nomes ligados ao teatro brasileiro e tive o privilégio de ter aulas privativas com eles. Falo de Sérgio Britto e Barbara Heliodora.
Sérgio é colega de emissora. Sempre cortês nos corredores e elevadores, era naturalmente mais próximo. Eu já o tinha entrevistado há uns seis, sete anos. Mas, na ocasião, o papo tinha sido curtinho. Ontem, falamos longamente sobre o início da carreira desse grande ator e sobre a grandeza do ofício de representar. Aos 86 anos, Sérgio Britto parece um garoto apaixonado pela primeira vez ao descrever sua relação com o teatro. Um dos maiores profissionais da história do teatro brasileiro, ele demonstra uma memória impecável: cita datas, autores, locais e detalhes de grandes montagens de que já participou. Ou que assistiu.
Entre outras coisas, Sérgio me contou que nunca fez um curso de interpretação. O que sabe, aprendeu fazendo. Criticou o "o exacerbado desejo de estar na telinha", tão comum entre os atores mais jovens, e, com brilho nos olhos, disse: "Não consigo ver outra profissão melhor e mais bonita que a do ator". Difícil não acreditar...
Da casa de Sérgio Britto, fomos para a de Barbara Heliodora. Respeitada crítica teatral - uma das maiores referências da área no país - essa senhora de quase 90 anos tem fama de durona. E, confesso: isso mexeu comigo. Cheguei ao local da gravação preparado para fazer uma entrevista difícil. Mas, logo ao entrar, fui surpreendido com um largo sorriso daquela senhora incomodada com o desconforto trazido por uma tarde de outono bem mais quente que o desejável. "Esse calor é insuportável!", ela disse. E rimos...
Foi apenas a primeira risada de muitas que viria a dar durante toda a gravação. Igualmente apaixonada pelo teatro, Barbara Heliodora me contou que já viu mais de 3.200 peças em sua vida! O recorde foi em Londres: 27 peças em 22 dias! Uma maratona que só poderia ser cumprida por alguém que se auto-define como uma "tarada por teatro".
Barbara Heliodora já viu mais de 3.200 peças de teatro
Generosa, dona Barbara - como a chamei durante a conversa - contou qual a estrutura que procura seguir em suas críticas e revelou que muito raramente toma nota de detalhes enquanto está na plateia. Quando perguntei sobre o mito do "crítico que amedronta autores, diretores e elenco", ela disse que isso é uma grande bobagem. E com os mesmos olhos brilhantes que vi em Sérgio Britto, esclareceu: não vai ao teatro em busca de defeitos! "Não há nada melhor do que ver um bom espetáculo de teatro", contou.
E, novamente, sou obrigado a dizer: difícil não acreditar!
Pena que, de tão entusiasmado com a conversa, nem pedi a alguém para registrar o momento. Mas pego um still do vídeo e publico aqui assim que possível, certo? UPDATE: A imagem já está no devido lugar. E ficou bem bacana!!!
Voltei à redação feliz da vida. Com boas entrevistas gravadas e, mais que isso, feliz por conhecer mais de perto dois apaixonados pelo que fazem. É essa paixão que quero conservar em mim também...

Quem quiser conferir as entrevistas, pode ficar ligado no Salto para o Futuro em maio. A gente está preparando uma bela série sobre Teatro. Clique aqui e saiba mais.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Teatro: sobre a estreia de 'Era no Tempo do Rei'...

Elenco posa para foto no Paço Imperial. Musical dirigido por João Fonseca estreou nesta sexta, no Teatro João Caetano.
Há uns dois anos, Ruy Castro lançou um romance em que tentava descrever como seria um encontro entre o Príncipe Pedro, herdeiro da Coroa Portuguesa, e o moleque Leonardo, criado nas ruas do Rio de Janeiro e saído das páginas de Memórias de um Sargento de Milícias. Hoje tive o prazer de ver ganhar vida essa história que me seduziu desde que a avistei nas prateleiras da livraria. E não poderia ter sido num local mais adequado: em pleno Teatro João Caetano, construído por Dom João VI.
Escrita por Heloísa Seixas e Julia Romeu - respectivamente esposa e filha de Ruy Castro - a comédia musical Era no Tempo do Rei tem músicas assinadas por Carlos Lyra e Aldir Blanc e ganha o palco exatos 200 anos depois do tempo da ação. Narradas por D. Maria, a louca, as aventuras de Pedro e Leonardo pelas ruas da Corte se dão num ritmo acelerado, pontuado por canções fortes, belas e inspiradas. E que contribuem muito para que o musical tenha, de fato, uma pegada brasileira.
O elenco é cheio de acertos! Saraya Ravenle, como Bárbara dos Prazeres, mostra que poderia ter enveredado pela carreira de cantora sem dever nada às maiores representantes brasileiras do ofício. Alice Borges, carismática e envolvente, cativa o público sempre que surge no palco com sua rainha louca. O sotaque português parece ainda pouco íntimo da atriz, mas não chega a atrapalhá-la. E tem uma graça especial o número em que ela surge no meio da plateia. Arranca boas risadas!
Entre os homens, o destaque absoluto é André Dias. Aliás, é impressionante o brilhantismo desse astro dos musicais nacionais, que já havia comentado aqui quando o vi em cena em Avenida Q. André é afinado, tem total domínio do corpo em cena e, o que é fundamental para quem sobe num palco, parece atrair o olhar dos espectadores. Assim, é fácil rir do seu jeito de franzir a testa ou de colocar a voz. Um ator completo e inteligente, que soube fazer de João Calvoso um anti-heroi adorado pela plateia.
Como Dom João VI, Leo Jaime também não faz feio. Só não leva muita vantagem porque o personagem, eternamente representado como o paspalho bonachão, realmente parece oferecer poucas oportunidades. Mas Leo se sai bem na empreitada: interpreta com segurança o Príncipe Regente.
Izabella Bicalho surge em cena bigoduda como Carlota Joaquina - e enfeiar a bela atriz é um grande mérito da equipe de caracterização do espetáculo. Bicalho está bem no papel, embora o sotaque castelhano dificulte a compreensão do texto em algumas passagens. O mesmo acontece com Tadeu Aguiar, este defendendo um Jeremy Blood de forte sotaque inglês. Problemas que talvez sejam típicos de uma estreia...
Os jovens atores que interpretam Pedro e Leonardo também dão conta do recado, com destaque para Renan Ribeiro, o Leonardo. Afinado e simpático, brilha no palco como o primeiro trombadinha da literatura brasileira. Tem futuro!
O único senão vai para a cenografia. Um fundo vermelho incompreensível permanece em cena o tempo todo e destoa do clima e do restante do cenário. Sem contar que, em alguns momentos, o fundo do palco fica exposto, de modo que é possível perceber a movimentação de atores e da equipe técnica do espetáculo. Sem falar de outros pequenos deslizes, como um conjunto de lampiões que não acenderam numa cena entre Dom João e Bárbara. Falha pequena - que também atribuo ao calor da estreia.
O espetáculo é alegre e envolvente. Debochado - como o texto de Ruy Castro - e atual. O inglês de Tadeu Aguiar diz em cena que a "primeira palavra que aprendeu no Brasil foi impunidade". E é impossível não pensar que, 200 anos depois do tempo da ação, essa mesma palavra ainda esteja tão presente em nosso cotidiano.
Eu recomendo! Era no Tempo do Rei é um espetáculo que faz rir e pensar no nosso país "puro e depravado" dos versos de Aldir Blanc...

sábado, 28 de março de 2009

Uma noite no teatro. Com Xuxa, Sasha & cia...

Cumprindo uma promessa, na noite de ontem eu levei, dona Ismênia, minha mãe, para conferir as aventuras de Dona Hermínia, estrela absoluta de Minha Mãe é uma Peça. Nada fora do comum, certo?
Sim, seria. Mas não foi porque, quando entramos no teatro, nos deparamos com Xuxa, Sasha e Luciano Szafir.
Tudo fora do comum, certo?
Estávamos distantes da loira e ficamos, eu e minha mãe, observando as reações das pessoas quando, enfim, percebiam que havia uma estrela - fora do palco - naquele teatro. E foi muito curioso constatar que ninguém passa incólume por Xuxa. Aquela história de brilho, de carisma...acho que é tudo verdade sim!
Encerrada a peça, o ator Paulo Gustavo olhou para Xuxa, que estava na primeira fila, e soltou: "Gente, quando eu vi a Xuxa aqui, quase perdi o texto!". Depois, a loira ouviu que a encenação da noite fora realizada em sua homenagem. E, de quebra, o astro do espetáculo ainda revelou um desejo nutrido na juventude: "ser paquita"!
Ou seja: um programa que tinha tudo pra ser corriqueiro, acabou sendo completamente fora do normal...
E, sim, minha mãe adorou o espetáculo! Sobre o ator, que enfrenta um monólogo com maestria, concluiu: "tem que ter peito pra encarar uma plateia sozinho como ele faz!". E, no fim, admitiu: "toda mãe é uma peça mesmo!"

sexta-feira, 20 de março de 2009

Q: uma avenida cheia de graça!

Elenco de primeira, texto repleto de boas tiradas e produção impecável: ingredientes infalíveis de Avenida Q, o mais recente espetáculo de Charles Möeller e Claudio Botelho...

Nunca fui fã de musicais e não falo isso com orgulho. Encaro como uma limitação minha o fato de clássicos do cinema como "A noviça rebelde" e "Mary Poppins" jamais terem chamado minha atenção, permanecendo inéditos pro blogueiro aqui até hoje.
Por isso, quando fui ao teatro na última noite de quinta-feira, não tinha grandes expectativas. Mas, depois das duas horas de "Avenida Q", deixei a sala com a certeza de ter visto um grande e divertidíssimo espetáculo!
Misturando bonecos manipulados por atores e atores que não manipulam bonecos, o musical conta a história de um jovem que chega a um lugar que parece abrigar todos os fracassados da paróquia. Princeton, o protagonista, chega à Avenida Q em busca de um rumo para a sua vida. E é a partir dessa busca que os conflitos e as tiradas sensacionais do texto são oferecidas ao público.
Nos Estados Unidos, onde está em cartaz há seis anos, Avenida Q é considerado um musical politicamente incorreto. Aqui no Brasil, país naturalmente vocacionado para o deboche e a galhofa, o tom e o efeito do texto ganham novas dimensões. Mas não perdem a graça. Seja na hora de rir de Rod, o boneco-gay-enrustido; ou na hora de uma bombástica conversão da boneca-gostosona a uma igreja evangélica; não importa: a graça está lá o tempo todo!
As músicas são igualmente divertidas e impressionantemente bem executadas pelo elenco. Destaco a linda voz de Claudia Netto que, se não fosse atriz, certamente poderia enveredar pela carreira de cantora. Mas, atriz de primeira e com toda a sensibilidade que uma comédia requer, Claudia protagoniza muitas das cenas mais engraçadas do espetáculo e arranca inúmeras gargalhadas da plateia.
Entre os homens, o destaque é André Dias, que manipula/interpreta/canta como dois bonecos. Usando vozes diferentes e com uma expressão impressionantemente idêntica a dos seres de espuma e pelúcia que carrega e movimenta com as mãos, André sustenta boa parte da ação do musical sem perder o fôlego, o tom e a graça que um protagonista deve ter. Talento dos grandes!
Aliás, um parêntese: impressiona a habilidade que o elenco demonstra para manipular e contracenar com os bonecos, sem que a ação se torne farsesca em momento algum. E aqui vai uma revelação que apurei lá no teatro: nenhum dos atores tinha experiência com manipulação de bonecos antes. Impressionante!
Cenário e iluminação ajudam a tornar ainda mais apropriado o substantivo espetáculo que, em Avenida Q, ganha ares de adjetivo. Figurinos e direção de arte também são inspiradíssimos e, para falar de um único destaque, cito a (maravilhosa) cena do casamento de Japaneusa e Brian, quando as luzes se apagam e...supresa!
O texto, além de graça e deboche, tem um jeito meio inocente de tocar nas misérias humanas. É bonito, sem ser piegas. E deixa a plateia mais leve depois de uma noite de muitas risadas...
Recomendo! Pra quem é fã de musicais e pra quem, como eu, não sabia o que está(va) perdendo!!!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Um gênio chamado Bibi...

Vitalidade. É isso que tive o prazer de ver Bibi Ferreira esbanjar na noite de ontem, no palco do Teatro Clara Nunes. Em cartaz com Às favas com os Escrúpulos, a atriz de quase noventa anos enche os olhos da plateia e prova que o tempo tem lhe tratado muito bem.
A peça, de Juca de Oliveira e dirigida por Jô Soares, conta a história de uma mulher que, depois de 43 anos de vida em comum, descobre que está sendo traída pelo marido, um homem que julgava ser um exemplo de integridade. Detalhe: ele é um influente senador da república! E, em meio à crise conjugal, Lucila (Bibi Ferreira) descobre que a falta de integridade do marido não se limitou à vida conjugal...
O texto brilhante de Juca de Oliveira é extremamente atual, cheio de referências a fatos e personagens reais - Bibi chega a citar José Sarney como presidente do Senado e Sarney foi eleito na última quarta-feira! Sobra humor ácido, irônico e, claro, crítico, que arranca gargalhadas do público ao escarafunchar os meandros da vida pública de deputados e senadores. Uma das cenas mais emblemáticas é o momento em que, completamente bêbada, a personagem de Bibi se põe a criticar os gastos para manter um gabinete de senador, debochando da quantidade de assessores - 30!!! - que a lei brasileira destina a cada parlamentar ("O Obama, presidente dos Estados Unidos, tem quatro assessores! Quatro personal advisors! Quatro!"). Na cena, ela ainda simula um pronunciamento em plenário. Algo realmente hilariante!
Todos os atores estão bem na montagem, prova de que Jô Soares soube executar o que o autor propunha no texto. Gracindo Jr. e Bárbara Paz se destacam, mas há também o jovem Daniel Warren, que faz o neto de Bibi e tem cenas interessantes com a avó.
Mas é Bibi que brilha no espetáculo que se estende por duas horas que parecem voar. Leve e ágil em cena, de um jeito que chega a impressionar, a atriz emociona e faz rir e deixa claro para todos que o teatro é seu habitat natural. Dona de voz firme e dicção perfeita, arranca muitas gargalhadas do público ao dar vida à professora aposentada que se vê diante de um grande dilema ético.
Um ótimo programa, que eu recomendo muitíssimo. Até porque poderia ser apenas mais uma peça, mas quem vai assistir sai do teatro com a impressão de ter ganhado de lambuja um show de talento e um exemplo de vida. E posso dizer, desde ontem, que os gênios existem! E que tive o privilégio de ver um deles atuar em plena forma...

sábado, 15 de novembro de 2008

Toda mãe é uma peça!

Dona Hermínia: estrela do monólogo, personagem criada e interpretada pelo ator Paulo Gustavo é uma espécie de síntese de todas as mães que há no mundo...

Talento é algo que sempre me impressiona. E, mais que isso, emociona mesmo. E foi exatamente essa emoção que senti na noite desse sábado, quando, de pé, no meio da platéia, aplaudi com muita vontade o ator Paulo Gustavo.
Paulo é autor e ator do monólogo "Minha mãe é uma peça", que felizmente já faz longa carreira em teatros cariocas. Depois de ouvir muitos elogios, só ontem pude conferir a engraçadíssima história de Dona Hermínia, a mãe que dá título ao espetáculo. A demora, aliás, também se deve ao sucesso arrasador da montagem, que não pára de lotar os locais em que fica em cartaz...
Quem já ouviu a máxima que diz que todas as mães são iguais vai poder comprová-la nessa comédia. Sim, leitor, nos tiques e nas expressões de Hermínia, há muito de Marias, Verônicas, Stellas, Júlias, Franciscas...! Há muito da minha Ismênia também! E é praticamente impossível não reconhecer nos trejeitos e no humor da mãe que está em cena traços da que está em casa, no coração ou na memória. Hermínia é mãe de todos nós! E exatamente por isso, foram várias as vezes em que ouvi, aos sussurros, alguém dizer: "Minha mãe é igualzinho!".
Aí está grande parte do mérito do autor Paulo Gustavo: sensível, ele soube capturar para o texto essas características universais da maternidade. Aquele tom vitimizante, dramático, exagerado e cruelmente reclamão; de quem é capaz de dizer à filha que "vai dar um tapa e virar sua cara pro lado" e, momentos depois, explodir: "às vezes eu tenho vontade de sumir!"; sem falar no corriqueiro: "ninguém tem capacidade de lavar um copo!". Bem familiar, não?
Já o ator Paulo Gustavo tem o mérito de criar essa mulher cheia de tiques nervosos, com uma voz esganiçada e gritada que, no entanto, não cansa a platéia. Como também não cansam os momentos em que, solitária - mas, sempre, muito reclamona - Hermínia repete setecentas vezes o texto da bronca que ensaia dar nos filhos, na vizinha, na tia-mala que telefona sempre, em Carlos Alberto - o ex-marido - e Soraya, sua nova mulher.
Aliás, setecentos é um número que Hermínia repete bastante também...
Pra mim, um dos momentos mais engraçados é aquele em que a personagem se queixa do Natal. "Todo mundo briga o ano todo, aí na semana do Natal vem querer confraternizar! FALSIDAAAAAADE!!!" É divertidíssimo e a platéia explode às gargalhadas...
Turma, esse é um ESPETÁCULO, assim mesmo, com letras maiúsculas! Vale muito a pena assistir, rir e reconhecer a própria mãe na tal Dona Hermínia inventada pelo engraçadíssimo Paulo Gustavo.
Durante os aplausos, logo depois do fim da peça, o ator pegou o microfone e, antes que pudesse dizer alguma coisa, ouviu de uma senhora da platéia que a peça é sensacional. Ele agradeceu. E eu concordei! São raras as vezes em que um adjetivo traduz tão bem o que sentimos.
E foi exatamente o que aconteceu com esse sensacional ontem...

domingo, 30 de março de 2008

O drama cômico de Gimenez

"No Natal a gente vem te buscar": acompanhada por Ernani Moraes, Rodrigo Phavanello e Analu Prestes, Cláudia Gimenez estrela comédia dramática, dá conta do recado e arranca muitas risadas da platéia



Cresci vendo as atuações memoráveis de Cláudia Gimenez em programas de televisão como o "Viva o Gordo", a "Escolinha do Professor Raimundo" e o "Sai de Baixo". Gosto muito do humor que ela sabe fazer, da naturalidade com que diz os maiores absurdos em cena e, mais que tudo, de sua expressão séria, sempre pronta a se transformar num largo sorriso. E sempre pronta pra gerar em seus espectadores sorrisos igualmente largos.
De inegável talento cômico, que a Globo insiste em aproveitar (aprisionar???) somente em novelas, Cláudia Gimenez volta ao teatro para provar que sabe mais que fazer rir. Em "No Natal a gente vem te buscar", de Naum Alves de Souza, a comediante flerta com o drama sem deixar de arrancar risos da platéia durante todo o espetáculo.
Na montagem, Cláudia vive Solteirona, uma personagem marcada pela solidão. Abandonada pela família, a protagonista tem sua história mostrada em capítulos. Assim, ora Cláudia aparece como mulher madura, ora, travestida de menina de seis anos. A ordem dos episódios que contam a vida de Solteirona não é cronológica e o público precisa de atenção para não se perder nas mudanças de papéis de Ernani Moraes e Analu Prestes.
O elenco acerta em cheio no tom e, pra mim, a grande surpresa foi ver Rodrigo Phavanello, em sua estréia nos palcos, passar longe da canastrice e dos arquétipos do galã televisivo. Na peça, Rodrigo se mostra um ator disponível para o personagem, seguro ao contracenar com colegas mais experientes e, sim, com talento para fazer rir. Sempre natural, sempre correto, o estreante não parece forçado - erro tão comum em atores estreantes.
E o que dizer de Cláudia Gimenez? O que dizer de alguém que se impõe um novo desafio quando tudo já parece ganho e cômodo? O que dizer dessa atriz que se propôs e venceu o desafio de fazer um drama com o mesmo talento com que sempre fez comédia? Digo apenas que ela venceu mais essa! Que acertou no tom e que traz para cena um carisma impressionante, que faz brotar risadas mesmo quando a cena não é lá tão cômica.
Lembro quando, lá pelas tantas, Gimenez disse em cena um "ah, meu Deus...." e o teatro veio abaixo. Rindo, lembrei logo da inesquecível Edileuza, do "Sai de Baixo". E acho que muita gente ali lembrou da mesma personagem...
A história não prima pelo ineditismo e o mesmo pode ser dito das piadas que pipocam ao longo do espetáculo. Mas acho que não era essa a intenção do autor, uma vez que, em vários momentos da peça, paira na nossa mente uma fortíssima sensação de já ter visto/ouvido/vivido algo parecido e com alguém parecido com um dos personagens de "No Natal a gente vem te buscar"...

domingo, 2 de março de 2008

"Comédia em Pé": pequenas histórias, grandes risadas...

Cáudio Torres Gonzaga, Fernando Caruso, Fábio Porchat e Paulo Carvalho fazer rir (muito) com espetáculo simples, despretensioso e divertidíssimo!


Programação alterada no meio da noite, geralmente, é um saco! Você se planeja pra sair, ver um determinado filme, por exemplo e, ao chegar ao cinema, descobre que a película escolhida saiu de cartaz. Ou já teve a última sessão do dia. Um porre, porque você tem que decidir em poucos minutos o que fazer , depois de ter passado a semana toda se preparando pra curtir o tal do cinemão.
É quase como pegar um avião e desembarcar num novo destino, sem aviso prévio...
Ontem, estava preparado para conferir mais uma apresentação de Fernanda Torres em "A Casa dos Budas Ditosos". Na bilheteria, descobrimos - e e os amigos que acabei encontrando lá, na mesma situação - que todos os ingressos já estavam esgotados.
Pânico coletivo! Pra onde vamos? Fazer o quê? Onde estamos? Quem somos?...
Até que, por obra do destino, encontramos jogado no meio do shopping o Segundo Caderno d'O Globo. É sério! Encontramos mesmo, assim, do nada! Lendo as opções de teatro pra região da Barra, encontramos a "Comédia em Pé". Um casal de amigos já havia assistido e atestava: era engraçado. E, em busca de algo que ofuscasse a frustração pela não-compra dos ingressos pra peça de Fernanda Torres, lá fomos nós!
O "Clube da Comédia em Pé", o stand-up comedy tupiniquim, reúne Cáudio Torres Gonzaga, Fernando Caruso, Fábio Porchat e Paulo Carvalho. Os quatro se sucedem no palco e, com o uso de apenas um microfone - nada de outros adereços cênicos - contam suas histórias. Suas mesmo, porque o "dogma" da Comédia em Pé deixa claro que cada ator deve ser responsável pelo próprio texto. E, semanalmente, há ainda a adesão de um convidado.
Ontem, logo que Cláudio Torres Gonzaga começou a apresentação, eu já saquei que a escolha tinha sido muito acertada. Ao comentar o nosso incrível respeito pelos cones de trânsito, arrancou gargalhadas da platéia. Depois, Paulo Carvalho também fez ao rir ao debochar dos conhecimentos conquistados por enólogos de primeira viagem. Foi o menos inspirado da noite mas, nem por isso, deixou de ter graça.
Letícia Novaes era a convidada da noite e exibiu toda a graça ao descrever o horror da depilação. À vontade no ninho da comédia em pé, fazia gestos engraçadíssimos e descreveu todos os inconvenientes imagináveis do processo.
Mas os melhores da noite ainda estavam por vir: Fábio Porchat, que já fez uma breve e insossa participação no igualmente sem sal "Zorra Total", brincou com a platéia ao satirizar as vozes que nos cercam no dia-a-dia. Da voz da "mulher do aeroporto" à voz da "mulher do metrô do Rio", passando pela voz "da mulher da caixa-postal do celuar", Fábio deu um banho de presença cênica e de graça, arrancando aplausos em cena aberta por várias vezes. E provou - ao menos para mim - ser um daqueles talentos desperdiçados pela TV.
Fernando Caruso é o último a ganhar o palco e, pela ovação inicial, já dá pra perceber que o "Zorra Total", embora sem sal, deu popularidade ao cara. Só não conseguiu, mais uma vez, mostrar o talento que esse ator tem pra fazer rir. É absurdo como, logo na primeira frase, a platéia explode em aplausos! E foram vários outros quando, inspiradíssimo, Caruso começou a fazer uma crônica sacana do carnaval carioca. Muito bom mesmo!
Em suma: eu e meus amigos trocamos de peça, sim. Mas foi como mudar de restaurante e, no outro, descobrir uma daquelas preciosidades no cardápio! No fim, saímos todos muitíssimo satisfeitos!
Fica a dica: "Comédia em Pé" é um programão!!!
Ah, e só quem fica em pé é o elenco, ok???

domingo, 10 de fevereiro de 2008

'Cada um com seus Pobrema': show de talento e de humor inteligente...

Marcelo Médici lota teatro e faz o público morrer de rir em espetáculo cheio de sacadas que estão longe de reverenciar o humor rasteiro...

Ouço elogios ao talento do Marcelo Médici há um tempão! Lembro do cara no início da carreira televisiva, na "Praça é nossa", interpretando o Sanderson, um corintiano cheio de marra que rendeu ao ator o Prêmio Multishow de Humor, há dez anos. Achava o personagem meio boboca, mas eram inegáveis o carisma e a capacidade de convencimento que Marcelo emprestava à sua criação toda vez em que sentava no banco da praça, ao lado do Carlos Alberto.
O tempo passou, o ator foi parar na TV Globo e a mudança lhe fez muito bem. Embora a emissora esteja longe de aproveitar bem todo seu potencial, pelo menos tem dado mais visibilidade ao espetáculo que, desde 2004, Marcelo Médici encena com sucesso impressionante: "Cada um com seus Pobrema", sobre o qual ouço, leio e vejo elogios desde a estréia. E também desde a estréia guardei uma grande vontade de conferir, ao vivo, a performance do criador do Sanderson.
Sábado, lá fui eu ao Teatro Leblon. E como valeu a pena! De cara, entra em cena uma empregada doméstica, Cleuza, que arranca gargalhadas homéricas da platéia ao narrar todo o seu sofrimento de portadora de TOC - o tal Transtorno Obsessivo Compulsivo. Cleuza, que faz piada até com uma suposta falta de talento do astro do espetáculo, debocha dos seus irmãos de infortúnio: "Pobre vive dizendo que não tem nada, aí, quando vem a enchente, diz que perdeu tudo!". Não há quem não ria!
Sanderson também tem sua vez e, se nas TV o vendedor de "chicrete" parecia boboca, ganha força e projeção no palco, contando as peripércias da namorada que queria se suicidar por ter um cabelo "to-nho-nhóin". Risadas e mais risadas que crescem em volume e freqüência quando surge na boca de cena a versão decadente criada por Médici para a "Smurfete". Com a cara pintada de azul e a voz aguda e doce da duendezinha, o ator conta, com ar infantil, que a pobre personagem foi violentada até pelo Papai Smurf. Drogada e prostituída, tal Cristiane F., a Smurfete da peça acaba virando convidada de programa popularesco da TV e, por fim, passa a vender iogurte de porta em porta.
Quando minhas bochechas já davam claros sinais de exaustão - sim, rir cansa! - surge Tia Penha, a apresentadora infantil que detona o politicamente correto, tão em voga ultimamente. "Tinha Penha fuma e não vai parar", anuncia; despejando sobre o imaginário público infantil uma saraivada de impropérios deliciosos: "Papai Noel não existe", revela, debochando da inocência dos pequenos. Creiam: Tia Penha, por si só, já valeria o ingresso...
Jonson - assim mesmo, aportuguesado - é o surfista-modelo-e-ator-de-cabeça-vazia. Aparece com uma risada típica de quem tem a cabeça arejada (vazia???) e faz o público explodir no riso ao explicar sua técnica para encarar a passarela. Aliás, mais uma ótima sacada de Marcelo Médici, também responsável pelo texto do espetáculo.
Texto inspiradíssimo, que se torna ainda mais brilhante quando chega a vez de Jatira - uma mistura de astróloga, taróloga e podóloga - ganhar o palco. E a platéia, já que o número é permeado por vários improvisos com o público. "Trago a pessoa amada em três dias, se ela morar aqui na Zona Sul", anuncia a picareta de voz esquisita e olhar, digamos, místico e penetrante. Outro grande momento no qual o talento do ator para o improviso se torna incontestável.
No fim, o já célebre Mico-Leão-Dourado que tem a árdua missão de acasalar para evitar a extinção da espécie. Um banho de interpretação onde tudo é meticulosamente pensado: até o jeito do ator vestir a peruca que lhe faz ganhar uma vasta juba.
Saí do teatro rindo muito, brincando de repetir com a turma de amigos as frases da peça e reverenciando o talento desse grande ator. A dica, meus caros, é mesmo imperdível: "Cada um com seus Pobrema" segue em cartaz no Teatro Leblon até o próximo dia 24.
Se bobear, ainda vou de novo...

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Fecham-se as cortinas...

Paulo Autran: apaixonado pelo teatro, ator fez poucos e marcantes trabalhos na televisão

Há nove dias, li uma notícia na qual Paulo Autran se despedia de sua maior paixão: o teatro. “Infelizmente, não poderei mais fazer o que mais gosto na vida, que é atuar”, dizia o ator, emocionado. Eu estava na redação do Salto e lembro de, na hora, ter comentado com amigos do quão difícil e dolorosa deve ser para um apaixonado pelo seu ofício a certeza do fim; da impossibilidade de levá-lo em frente.
E lamentei, sinceramente, nunca ter tido a possibilidade e o senso de oportunidade para apreciar esse grande ator no sagrado assoalho do teatro...
Agora, para todo o sempre, pertencerei ao rol dos que jamais tiveram a oportunidade de conferir o talento, a genialidade e a cordialidade de Paulo Autran. Na TV, lembro-me de poucos trabalhos desse artista que hoje deixa o nosso plano. A cena memorável de café-da-manhã com Fernanda Montenegro, em "Guerra dos Sexos"; um Aparício impagável em "Sassaricando"; e o rigoroso religioso de "Hilda Furacão" fazem parte do meu mosaico particular de imagens desse genial artista brasileiro.
Descanso, paz, luz e bem a Paulo Autran!