Quando chegaram ao fim os versos de "O que é, O que é", de Gozaguinha, eu me senti agradecido. Não pelo fim do show ou da música, mas por haver testemunhado um show tão comovente, tão delicado e poético. Mérito do talento e da trajetória de 50 anos - ora justamente celebrada - de Maria Bethânia, a maior intérprete desse nosso país de cantoras. Não quero dar detalhes, não quero estragar surpresas. Mas quero registrar aqui a lindeza desse espetáculo e a alegria de ver Bethânia em cena, senhora de si e dos palcos; menina que brinca e baila sobre o LED moderna com a desconfiança de quem ainda traz no peito, na alma e na voz o cheiro de mato e a poeira das estradas e das entranhas do Brasil sertanejo, baiano, tupiniquim. Brasil que dialoga com os orixás da África, com a canção de Piaf e com Clarice e Fernando Pessoa. Bethânia já era global antes de inventarem a globalização, porque nunca perdeu o laço que sempre a manteve unida a Santo Amaro da Purificação. Fala de todo o mundo, suas dores e amores, falando das coisas de sua aldeia. Voou alto esse carcará! E que siga voando e nos fazendo olhar sempre pro alto. Voando e nos levando. Voando e nos elevando. Salve Maria Bethânia, a mais brilhante das estrelas dos céus do Brasil!!!
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segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
E Maria Rita redescobriu Elis Regina...
Baixei a versão digital de "Redescobrir" na ITunes Store, nos primeiros minutos do aguardado dia seis de novembro. Sim, esse foi, realmente, um disco muito esperado por mim. Primeiro, claro, por conhecer o repertório de belas canções, tesouro maior deixado por Elis Regina. Depois, e não menos importante que isso, pela curiosidade de ouvir como elas soariam na voz da herdeira da Pimentinha. Como não tive a oportunidade de ver nenhuma das apresentações do show aqui no Rio, só me restava conferir a gravação.
Baixei as músicas e ouvi três vezes seguidas. Embaladas em arranjos mais enxutos - em muitos casos, atualizados - as canções de Elis seguem arrebatadoras. Mas, no disco, esse arrebatamento se limita à força do repertório. Maria Rita, grande cantora, dona de momentos consagradores em sua carreira de uma década, enfrenta com altivez o desafio de reler a obra da mãe, mas é impossível evitar a comparação entre elas. E não é apenas a filha de Elis quem sai em desvantagem: toda e qualquer cantora brasileira sairia na mesma situação diante desse desafio.Elis era magistral. E segue assim: mestra de todas as intérpretes da MPB. Ia do grave ao agudo mais agudo sem titubear, intensa, num fôlego só. Brincava com a melodia, desafiava os músicos, parecia sempre na corda bamba, prestes a cair em cada verso. Nunca caiu! E segue no topo ainda hoje, passados 30 anos de sua morte.
Mas eu quis mais do que ouvir e, no último domingo, comprei o dvd do espetáculo. Achei a edição preguiçosa, e é flagrante que houve pressa no lançamento: há correções de câmera, perdas de foco e outros pequenos detalhes que jamais iriam para a versão final caso houvesse maior cuidado. Maria Rita está leve - apesar do barrigão - e soa um bocado careteira em algumas músicas, mas, apesar de suas interpretações sempre corretas e bem executadas, dosando bem emoção e técnica, fica longe do que a mãe fez em cena.
Há até um momento muito delicado no dvd: quando, em Arrastão, Maria Rita faz uma menção ao movimento frenético dos braços que Elis Regina executou no Festival da Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, em 1965. É delicado porque ali, naquele movimentar de braços, a filha assume o risco de ser comparada à mãe e, mais que isso, se expõe diante dos que pensam que esse projeto é uma tentativa de reeditar, com Maria Rita, o fenômeno Elis. Não creio nisso. Creio, mesmo, na sutileza de uma bonita homenagem à maior cantora que o Brasil já viu. E ouviu...
A grande filha de Elis tem alguns belos momentos. Fascinação, Essa Mulher, Vou deitar e rolar, Águas de Março (número em que parece fazer um cover descarado do improviso final gravado por Elis no disco com Tom Jobim), Onze Tiros, Romaria e Redescobrir estão - até o momento - entre as minhas prediletas. Me Deixas Louca é outro grande momento. Pontos altos de um show que é, sim, memorável.
Ainda no dvd, vale salientar como são belas as palavras que a cantora dedica à mãe na contracapa do disco e no encerramento do show. Aliás, cabe uma ressalva: o espetáculo soa mais frio do que deve ter sido, uma vez que os momentos em que a artista se direciona ao público foram suprimidos na edição.
Enfim, esse é um projeto arriscado. Para Maria Rita, para a gravadora e para o público: para as duas primeiras, pela comparação inevitável e pelo risco de uma rejeição dos mais puristas. Acho que esses riscos foram superados. Para o público, o risco é não se permitir embarcar na bela voz de Maria Rita e, assim, deixar de aproveitar a grandeza de repertório que o álbum oferece. Sigo firme, vendo e ouvindo de novo, em busca de superar o desafio que me cabe...
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Sobre os novos discos de Maria Bethânia...
Baiana lança dois discos simultaneamente. E, mais uma vez, oferece ao público o melhor da música em dose dupla...Antes de tudo, devo dizer que cada vez me admiro mais pela capacidade de produção de Maria Bethânia. De sua geração, ela é, de longe, a cantora mais comprometida com a renovação da MPB e, sem que isso soe paradoxal, em apresentar aos fãs mais jovens os grandes compositores da história da nossa música.
Hoje, chegaram às lojas os mais recentes trabalhos de Bethânia: Tua e Encanteria. Tua tem sonoridade mais urbana e temática romântica. Ainda preciso ouvir muito mais: na primeira audição, no carro, cansado depois de um dia de trabalho e compras, cheguei a achar o disco um pouco monótono na primeira metade. Mas, além da canção homônima, fiquei fascinado por "Você Perdeu". Belíssima!!!
Mas foi a outra novidade de Maria Bethânia que mais me cativou! Encanteria é um discaço! Traz a maior intérprete da MPB em sua melhor forma, com um repertório que parece burilado para a sua voz. As modinhas, a viola, a fé, a emoção e os festejos divinos tão recorrentes na discografia da baiana surgem nesse disco de forma alegre, adornados por melodias requintadas e cativantes. É disco de samba, é disco de samba de roda, é disco pra ouvir batendo palma, dançando e saudando a todas as forças da natureza evocadas por Bethânia em canções como "Linhas de Caboclo". Mas Encanteria me conquistou mesmo na faixa 5: acompanhada pelo irmão Caetano e por Gilberto Gil, Bethânia homenageia Edith do Prato com "Saudade dela". Um registro em que os três cantores estão perfeitos e que, por si só, já valeria todo o disco...
Enfim, Maria Bethânia, mais uma vez, presenteia o público com dois grandes trabalhos. E o próximo presente chega em breve, com a estreia da nova turnê da cantora, no Canecão.
Vambora?
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Haja...
Dois amigos vão lanchar no meio do expediente. Na cafeteria, enquanto aguardam o garçom, uma televisão ligada mostra um DVD de Lenine. Uma coisa bem plástica, bonita. Mas um tanto chata demais pro gosto de um deles. Olhando pro cantor cabeludo que fazia cara de sofrimento na tela, o faminto rapaz teve um insight e comentou com o amigo:- Não é à toa que o maior sucesso de Lenine é Paciência. Precisamos de muita mesmo pra aturá-lo...
Pano rápido.
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Sobre o duelo das baianas...
Li no blog do Mauro Ferreira que Maria Bethânia vai participar do novo projeto de Ivete Sangalo. Será uma gravação feita por Sangalo com convidados, no estúdio que ela acaba de construir em seu apartamento lá em Salvador. Daí o título: Pode entrar...Como admirador das duas baianas – por razões que são tão diversas quanto as trajetórias de ambas - fiquei feliz com a notícia. E cliquei nos comentários para ver o que os leitores do Mauro estavam achando da história.
E o que li foi um drama daqueles...

Uns criticam o excesso de produtos fonográficos lançados com a griffe da Sangalo. Outros, a qualidade do repertório que ela vem gravando – e isso é indiscutível: não é música pra fruição. Mas o que mais me irritou foi um comentário que questionava os motivos pelos quais Bethânia teria aceito o convite de Ivete.
Eis o que respondi:
“Turma, o envolvimento entre Bethânia e Ivete vem de longa data. Bethânia foi a primeira a prever o sucesso retumbante de Ivete, ao ouvir, nos anos 90, uma gravação da cantora novata - ainda a frente da Banda Eva - do axé "Adeus Bye Bye".
Daí partiu o convite. E Bethânia, elegantemente, aceitou. Acho esses preconceitos de fãs daquela "MPB sagrada e inacessível" um grande pé no saco! Talvez uma garotada passe a conhecer Bethânia melhor depois da gravação com Ivete. E passe a buscar outras coisas dela. Isso não é ótimo?
Bethânia aceita o que quiser, Ivete grava o que quiser. E quem não quiser, minha gente, não ouça, não veja, não compre! E não torre!!!
Século XXI e essa visão estreita ainda? Não dá! Na boa...”
Como diria o Sinhozinho Malta, "tô certo ou tô errado?"
Essa não é uma discussão velha e preconceituosa demais?
E vocês? O que pensam a respeito?
domingo, 6 de janeiro de 2008
Onde estará o meu amor?
A música brasileira é tão rica, tão diversa, que a gente se dá ao luxo de ter pérolas empoeiradas guardadas em nossas mentes. Como essa, que espanei essa semana com a ajuda do YouTube. E como é bom se reapaixonar pela mesma música...
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
O novo disco da Abelha Rainha...
Disco novo de Maria Bethânia é bom, mas destoa um bocado da grandiosidade do espetáculo que lhe serviu de matriz...Um disco de Maria Bethânia é sempre um disco de Maria Bethânia. E isso quer dizer requinte na produção, repertório bem escolhido, belos arranjos e interpretações marcantes para canções e textos. "Dentro do mar tem rio - ao vivo" não foge à regra. Mas, ainda que seja fã da cantora, não posso deixar de notar que há algo estranho nesse disco. Pareceu-me um pouco frio para um disco ao vivo, registrado num show tão arrebatador quanto o que origina este álbum. Digo isso porque assisti ao espetáculo em duas ocasiões e, em ambas, notei uma platéia muito mais efervescente do que a que aparece nas faixas desse cd duplo. E mesmo quando o coro se empolga, surge num volume baixo, como se nota em "Das maravilhas do mar fez-se o esplendor de uma noite".
Também não dá pra não notar que a voz de Bethânia parece não ter sido "retocada" digitalmente. O que está no disco é a alma da intérprete, inclusive com pontuais falhas e com a total supressão dos agudos tão festejados nas gravações originais de músicas como "A dona do Raio e do Vento".
Ponto positivo: a inclusão do festivo bis que agrega "A-la-la-ô", "Chiquita Bacana", "Chuva, suor e cerveja", "Água lava tudo" e "Frevo Molhado". Divertido! Sem falar na já antológica interpretação do texto "Ultimatum", sempre arrancando efusivos aplausos da platéia.
Agora é esperar o Dvd, que deve ser gravado no próximo final de semana, em São Paulo. Tomara que o vídeo retrate melhor todo o esplendor desse grande espetáculo. E que a platéia da Terra da Garoa se anime mais...
terça-feira, 21 de agosto de 2007
Um Cd belo e nada estranho...
Grandes cantoras gravando discos de samba. Essa parece a mais nova tendência da MPB. Marisa Monte e Maria Rita são duas das estrelas a enveredar pelo caminho (Marisa, em 'Universo ao meu redor'; e Maria Rita em seu terceiro disco, ainda por lançar).Mas ontem, depois de muitas recomendações de um novo grande amigo, comprei o melhor disco de samba da minha discoteca. 'Que belo estranho dia pra se ter alegria', de Roberta Sá, é uma obra-prima. Desde o projeto gráfico, sutil até dizer chega, ao cuidado com os arranjos de cada uma das 13 faixas. Tudo muito bom!
Lembro de Roberta na época do 'Fama', aquele pretensioso programa de calouros que nunca fez seus vencedores viraram, de fato, sucesso. Vai ver o caminho é não vencer, como se deu com essa grande cantora. Eliminada do reality-show, Roberta enveredou por um caminho muito mais seu, e sem as pretensões megalômanas de quem se pretende um grande ídolo. E é esse caminho, todo dela, que a gente pode trilhar junto, ouvindo esse belo trabalho. Dessa que é uma das maiores revelações da boa música popular brasileira...
Recomendo muitíssimo!
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