domingo, 20 de maio de 2012

Sobre o que Xuxa viu da vida...




Há tempos uma atração do Fantástico não repercutia tanto. Em uma longa edição, o quadro "O que vi da vida" exibiu depoimento de Xuxa Meneghel. A loira falou da infância no subúrbio, do começo da carreira como modelo, do  namoro com Pelé, do romance com Ayrton Senna e do preço da fama. Nenhuma novidade. Mas a loira guardou um desabafo para a parte final da entrevista e revelou ter sido vítima de abuso na adolescência.
O depoimento foi marcante. A história, triste como são todas as histórias de violência. E Xuxa pareceu um tanto perturbada. Não demorou até que aparecesse nas redes sociais muita gente duvidando do depoimento exibido no Fantástico. Cada um no seu direito, claro. Mas o fato é que muitas vítimas de abuso sexual passam a vida inteira sem conseguir revelar suas histórias de violência. Por isso, não me surpreende o fato de Xuxa falar do assunto somente às vésperas dos 50 anos. Muita gente também tá associando o tal depoimento à busca pelos holofotes. Ok, Xuxa não é mais o mesmo fenômeno, não rende mais o Ibope dos anos 90, mas...peraí...a loira tá milionária faz tempo, gente! Tem contrato longo em vigor, ou seja: não tem motivo algum pra chamar a atenção pra si com uma história desse tipo. 
Como postei no Facebook assim que acabou a entrevista, acho que ela precisa de um analista. E não é de hoje. Mas, em última análise, todos precisamos. Ficar atribuindo às declarações da loira sentidos incertos e suposições pretensamente críticas é bem esquisitão também! Acho que há uma grande diferença entre ser crítico e ser paranóico, querendo enxergar uma conspiração atrás de tudo o que acontece na TV.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Dicotomia

Recentemente, numa conversa com amigos, recuperei um assunto que há tempos me intriga: as diferenças entre o discurso que adotamos em nosso dia a dia e as ações que praticamos cotidianamente. De forma abrangente, essas discordâncias podem ser percebidas quando analisamos, por exemplo, a questão ambiental: às vésperas da Rio +20, nunca estivemos tão informados sobre a importância da preservação dos recursos naturais. Por outro lado, nunca consumimos tanto, nunca descartamos tantos resíduos de forma inadequada e nunca desperdiçamos tanta água.
Achou o exemplo amplo e complexo demais? Pois bem, lá vai outro: hoje, estamos conectados o tempo todo, ligados entre teias e mais teias de redes sociais. Curtimos, comentamos, compartilhamos, tuitamos, retuitamos; criamos e recriamos laços o tempo todo na esfera virtual. Ao mesmo tempo, parecemos ter perdido a capacidade de estabelecer vínculos mais fortes, sólidos. A própria palavra "amigo", popularizada em redes como Facebook e Twitter, ganha novos sentidos: qualquer um vira seu amigo a um clique. Uma vez dado o "aceito", todos caem na vala simples da "amizade" genérica, virtual, numérica. Em geral, todos valem rigorosamente a mesma coisa e essa mesma coisa é rigorosamente nada!
Polêmico? Talvez. É bom avisar que não sou um reacionário e que adoro usar o Facebook. Mas entendo que essas são questões do nosso tempo. E que têm, todas, reflexos sobre a mais profunda das nossas atuais dicotomias: a que envolve nossos relacionamentos sentimentais.
Note bem: se você tem amigos solteiros, é bem provável que os ouça constantemente falando do desejo de "encontrar alguém". Se ouve isso, você também deve escutá-los discorrendo sobre a necessidade de "estar junto", de "namorar", de "viver uma história de verdade, séria". E por aí vai...
Mas acontece que, embora essa discurso esteja presente de modo muito forte em nossa sociedade, ele é completamente antagônico às práticas que adotamos de uns tempos pra cá. Talvez contaminados pela mesma lógica do "descarte", passamos a rejeitar uns aos outros ao menor sinal de desacordo. É fácil como apertar um imaginário botão de "delete" e, assim, expurgar da vida real um alguém qualquer como se faz com qualquer arquivo inútil de computador. É rápido como clicar na opção "desfazer", quando se volta atrás depois de "curtir" um post do Facebook. Assustador!
Eu me assusto porque já estive casado - e gostei verdadeiramente da experiência. E encaro uma relação como uma construção diária, uma negociação permanente - muitas vezes cansativa, é bem verdade - em que um objetivo comum - a vida a dois - justifica muitos dos percalços. Mas pra que essa vida seja bacana, leve, é preciso que não percamos o foco: há de se fazer escolhas! Para que dure - e que seja eterno enquanto durar - é fundamental ter a coragem de abrir mão do que importa menos e investir na realização de um sonho que até pode acabar logo, mas que vai deixar gostinho bom no fim se essa entrega for verdadeira e menos egoísta. Afinal, se cada um seguir olhando apenas para o próprio umbigo, agindo de forma inconsequente e sem disposição de aprender a conviver, esse cenário de dicotomia só tende a se aprofundar. E aí, perceberemos todos que, no fundo, nossa sociedade está mesmo embolada numa rede que mais lembra uma cama de gato... 

terça-feira, 10 de abril de 2012

Sobre a polêmica do aborto de fetos anencéfalos...

O Brasil acompanha - de modo menos interessado do que devia - o debate que envolve o julgamento do Supremo sobre a descriminalização do aborto de fetos anencéfalos. Quatro ministros do STF declararam hoje que votarão a favor do projeto que, caso aprovado, permitirá que pais e mães possam escolher como proceder em caso de gestação de um bebê sem cérebro - ou com comprometimento cerebral grave.
Tenho acompanhado as discussões pela mídia - e a TV é, de longe, a que menos tem se dedicado ao tema. Talvez para fugir de polêmicas com grupos religiosos e conservadores. Talvez por não reconhecer que essa seja uma temática de grande relevância. Vi apenas algumas discussões em programas como o Sem Censura e o Repórter Brasil, ambos da TV Brasil, e um debate no Entre Aspas, da Globonews.
Em todos os casos, fiquei surpreso com o nível de argumentação dos que são contrários ao projeto em discussão. Também me surpreende a total falta de sensibilidade à causa das mães que se deparam com um diagnóstico duro e decisivo: gerarão bebês com expectativa de vida limitadíssima. Bebês que podem existir por minutos, talvez horas.
Os que são contrários a descriminalização dos fetos anencéfalos se dizem a favor da vida. Também o sou. Totalmente. Mas fico penalizado ao imaginar que uma família pode ser obrigada a levar em frente uma gravidez que poderá terminar em morte sem que nada possa ser feito para diminuir, abreviar ou simplesmente evitar que tamanho sofrimento se torne ainda maior.
Não se trata de tornar o aborto de fetos anencéfalos uma obrigação. Seria contrário à ideia, caso fosse essa a proposta. Trata-se de oferecer aos familiares que atravessam esse momento tão delicado a possibilidade de escolher qual saída pode ser menos traumática. E só quem pode mensurar a dor que qualquer das escolhas vai ocasionar são aqueles que, de fato, vivenciam a angústia dessa decisão. Não acho justo que o Estado ou que as igrejas se arvorem no papel de defender uma vida para a qual virarão as costas em seguida. Ou alguma proposta e/ou dogma religioso prevê o acompanhamento psicológico para os familiares dos bebês anencéfalos depois que sua inevitável morte se consumar?
Alguns poderão dizer que há casos de crianças sem cérebro que conseguiram - e conseguem - viver por alguns anos. Sim, eu sei. Certamente são crianças amadas por seus pais. Mas também é certo que, infelizmente, elas representam uma exceção à regra. A maior parte jamais terá alta da maternidade.
Enquanto as TVs parecem negligenciar o debate - o que deve mudar nesta quarta, caso o STF chegue a uma conclusão - a Internet segue como tribuna livre. Hoje, no Twitter, os Trending Topics registraram algumas vezes expressões ligadas aos grupos que defendem que o abortamento de fetos anencéfalos deve continuar proibido por lei.
Felizes esses tempos de democracia. Mas sinto falta de argumentos menos "contaminados" por valores ligados à religião e mais sensíveis à delicadeza inerente à situação. Não se está falando de liberar o aborto. O que está em pauta é dar às mães e aos pais que vivenciam a situação a possibilidade de escolher de que forma melhor podem superá-la. 

sexta-feira, 30 de março de 2012

Quando chega a nossa vez...

A gente vê, ouve, lê e fica sabendo de tantas histórias sobre roubo...mas nunca imagina como agir caso essa tragédia carioca bata à nossa porta. Ontem, bateu à minha. Voltava da academia, pelo Elevado da Perimetral, quando dois homens num carro prata me fecharam. O carona desembarcou apontando uma pistola pra minha cara. Tudo rápido, parecendo coisa de cinema. Mas não havia trilha sonora para criar clima: a tensão era real. Como a vida. 
Tive muita calma e mantive meus braços erguidos o tempo todo. Da fechada até a hora em que desci do meu ex-carro acho que não chegou a se passar um minuto. Desci, os bandidos zarparam e fiquei ali, perdido, durante aqueles segundos dos quais já lembro como os mais angustiantes da minha vida. Pra onde ir? Como caminhar com as pernas tão trêmulas? O que fazer para chegar em casa sem dinheiro, sem carteira, sem um celular para me comunicar com alguém?
Não tive tempo pra achar as respostas. Não fui atropelado - apesar de tantos carros que passavam pela via em grande velocidade. Comecei a correr me equilibrando pelo estreito canteiro da via até alcançar o começo da Avenida Brasil. Logo cheguei a um ponto de ônibus. Como tinha acabado de sair da academia, temia que os taxistas se recusassem a parar para um passageiro de camiseta e bermuda. Pedi ajuda a um senhor que parecia voltar pra casa depois do trabalho. Queria que ele me auxiliasse a parar um táxi. 
E ele me ajudou. Como também me ajudou o taxista, um senhor de uns 50 anos, calmo, solidário, que me emprestou o telefone celular para que eu cumprisse o ritual mais doloroso da noite: avisar minha mãe sobre o que acabara de acontecer. Fiquei preocupado porque sou filho único, minha mãe morre de medo dessas histórias todas, e não queria sequer pensar no susto que ela levaria com a ligação a cobrar.
Ela se assustou, claro. Mas ficou firme. E eu também.
O taxista continuou a me ajudar. Foi ele a me dizer o número de telefone da minha companhia de seguros - uma vez que meu celular e todos os meus contatos tinham ido embora no carro roubado. Foi ele a, mesmo dirigindo, apertar os botões do telefone durante o atendimento automático, ao perceber que minhas mãos tremiam demais. Foi ele a falar com a atendente da seguradora, até perceber que eu já estava mais calmo. E também foi dele a ideia de ligar para o 190 da Polícia Militar para disparar o tal "alarme de roubo de veículo". Coisas nas quais eu nem sei se teria a tranquilidade de pensar...
Ao chegar em casa, um alívio enorme: minha mãe, aflita, estava bem. Ela me esperava com os braços abertos e tentava dizer palavras de coragem, de força - quando eu sabia que ela estava tão arrasada quanto eu. Logo, ela me contou que quando liguei comunicando o roubo, acabara de fazer sua oração para Nossa Senhora Aparecida, nossa santinha protetora. Nossa Senhora, que estava coladinha no para-brisa do meu carro, foi minha mãe, mais uma vez, na noite de ontem. Ela me cobriu com seu manto azul e impediu que qualquer coisa de pior me acontecesse. Protegeu a mim, à minha mãe e a todos que me amam. Agradeço por isso. Muito! Por estar vivo, saudável e forte pra poder seguir em frente realizando meus sonhos. 
Também aproveito para agradecer aos meus amigos. Tantas ligações, tantas mensagens bonitas, tantas palavras doces e reconfortantes. Se já chorei algumas vezes depois dessas quase 24 horas, em muitas delas a motivação foi essa sensação de estar amparado por tanta gente querida. Que orgulho ter vocês na minha vida! Que tesouro inestimável é poder contar com tanta gente do bem, lado a lado, nessa jornada incrível que é viver! Estou firme, estejam certos! E vamos seguir em frente desbravando a vida, rindo e trabalhando muito juntos! Porque esse bem ninguém nos pode tomar!!!
Os prejuízos existem, claro! A dor-de-cabeça para resolver todos os trâmites, idem. Também há tristeza por ver que tantas coisas tão especiais, pelas quais lutei muito, viraram pó assim, num piscar de olhos. Há revolta também! Pela sensação de impotência, de insegurança de i...diotice! Por me sentir vítima de um Estado que olha pra mim como fonte de recursos, e não como pessoa que merece serviços essenciais bem prestados. Mas tudo isso, meus amigos, é algo menor. É menor que essa gratidão por estar vivo, é menor que o amor que tenho pela minha vida, pela minha família, pelos meus amigos, pelo que sou. É menor do que a certeza de que não faltarão as chances para que eu reconquiste o que se perdeu. 
Porque, na noite de ontem, tive, mais uma vez, a certeza de que sou um cara muito abençoado!
Amém! E vamo que vamo!!!

quarta-feira, 28 de março de 2012

A agonia da Sessão da Tarde?

Uma nota da coluna da Patrícia Kogut no Segundo Caderno de hoje confirma algo que eu já imaginava: a Sessão da Tarde tá derrubando a audiência da TV Globo. Segundo a jornalista, há estudos para identificar o público-alvo da tradicional sessão de filmes, célebre por exibir títulos voltados para crianças e adolescentes que, ao que parece, já não se interessam mais por esse tipo de atração na TV. 
Não precisa ser um grande especialista para notar a grande variedade de estímulos disponíveis para os telespectadores mais jovens. Cito dois grandes rivais da TV: games e internet. Diante deles, tão cheios de recursos de interatividade e com tantas possibilidades de entretenimento, é quase ingênuo supor que meninos e meninas vão continuar se comportando como há 20,30 anos e, diariamente, permanecer sentados diante da telinha para acompanhar reprises de filmes inocentes, comédias românticas, aventuras bobocas e afins.
Acredito que o horário precisa privilegiar conteúdo inédito. Enlatado na TV aberta é conteúdo cada vez mais arriscado! Para concorrer com a internet em pé de igualdade, a televisão aberta precisa se debruçar sobre o novo, oferecer outras possibilidades de interação e, mais que isso, entender o comportamento desse público inquieto, que vê TV navegando na web, falando com amigos e trocando mensagens nas redes sociais. Uma realidade nova, ainda muito recente, e que deixou pra trás até mesmo a mais jetsoniana das previsões. Coisa que a gente não viu nem em "De volta para o Futuro", um dos clássicos da sessão de filmes vespertina mais tradicional da televisão brasileira...

terça-feira, 27 de março de 2012

Meu encontro com Regina...

Quando entrei pra faculdade de Comunicação, levei comigo a paixão pela escrita, pela leitura e o sonho de contar boas histórias na TV. Sim, eu sabia que a minha praia era o telejornalismo desde pequeno. E isso nada tem a ver com o glamour: sempre fui fascinado pela "mágica" dessa janela eletrônica, tão presente e - ainda hoje - tão forte em nossas vidas.
O curso tinha todas aquelas cadeiras mais teóricas - concentradas no primeiro e no segundo períodos, sobretudo. Mas uma me conquistou em cheio: Redação! O nome da disciplina não era exatamente esse, mas o objetivo era ensinar aos futuros jornalistas as técnicas do texto para os diferentes veículos de comunicação. Lembro de, logo na primeira aula, ter ficado fascinado com a ementa que nortearia nossos trabalhos ao longo do semestre. E, também logo na primeira aula, a professora nos encomendou um texto de caráter jornalístico, opinativo, sobre um tema livre. Teríamos, portanto, de criar uma espécie de artigo nessa primeira experiência de produção textual.
Era agosto de 1998. Voltei pra casa pensando no ônibus. Mas não tardou até chegar a um assunto do meu interesse: a história de Francisco de Assis Pereira, o Maníaco do Parque. Naquela mesma noite, fascinado com a tarefa que tinha pela frente, lotei de letras a tela branca do Word e senti uma felicidade tamanha ao notar que, sim, conseguira contar a história e opinar sobre um fato tão "quente", sério e polêmico.
Entreguei o trabalho e fiquei esperando o retorno, claro. E quando ele veio, algumas horas depois, trouxe a certeza de que eu não havia escolhido um caminho errado - embora ainda pretendesse cursar Publicidade: a professora elogiou meu texto! Disse que já parecia uma narrativa jornalística! Fiquei nas nuvens...
Claro, havia uma ressalva: com caneta vermelha, a professora envolveu os nove pronomes "que" com os quais eu tinha construído minha narrativa. Uma repetição excessiva, apontava ela. Lição das mais valiosas naquele início de graduação.
Hoje, 14 anos passados, revi essa professora. Estava trabalhando, finalizando um dos programas que exibiremos em abril e, coincidentemente, Regina apareceu para conhecer as novas instalações da TV Escola. Eu a reconheci imediatamente, claro. Fiz questão de abraçá-la, trocamos algumas palavras - ela, muito afetuosa, felicitando-me por estar no mercado, atuante - e nos despedimos em seguida. Um breve encontro, mas com sabor muito especial. Sem saber, 14 anos atrás, aquela mulher foi a primeira pessoa a acreditar que eu estava no caminho certo. A primeira a dizer que minhas palavras, agrupadas, produziam sentido, contavam uma história e emocionavam. A primeira a, com essa atitude, me dar força e confiança para seguir em busca de um sonho de menino.
Sonho que, há 12 anos, realizo todos os dias...
Professores são figuras fundamentais em nossas vidas. Tive muitos, muito queridos e especiais. De alguns, me tornei amigo. Por alguns, tenho profunda admiração. Mas tenho profunda gratidão pro todos. Sentimento que me moveu mais cedo, ao abraçar Regina. E que voltou a me motivar horas depois, na volta pra casa, quando, dirigindo, comecei a formatar esse texto na cabeça. Exatamente do modo como, 14 anos atrás, fizera com o tal primeiro artigo escrito sob encomenda dessa querida mestra...

sexta-feira, 23 de março de 2012

Obrigado, Chico!

Alberto Roberto: meu personagem preferido, o "símbalo sescual" da incrível galeria de tipos criados por Chico Anysio
Quando eu era moleque, as caretas de uma das aberturas do "Chico Anysio Show" me metiam medo. Pudera! Esse cearense, célebre por criar tantos tipos, surgia na tela esticando orelhas e nariz, arregalando olhos e deformando a testa. Obras dos efeitos de edição da época, claro! Mas o susto provocado pela vinheta do programa logo dava lugar às crises de riso propiciadas por tantos personagens, tão ricos e diversos. Tão plurais e tão singulares. 
Obras de gênio!
Obras de Chico!
Eu ria de Haroldo, o hetero mais gay que a televisão brasileira já mostrou. Ou seria o gay mais hetero? Ria das mentiras de Pantaleão e das gírias do Jovem. Dava risada das peripércias de Bento Carneiro, vampiro brasileiro - e de sotaque mineiro! Tinha verdadeiras crises de riso com o "símbalo sescual" Alberto Roberto, galã de redinha nos cabelos e pai da canastrice. Das loucuras do Coalhada e das eternas rusgas de Nazareno com sua mulher, sempre maquiada de modo pouco ortodoxo.
Mas Chico não me fez apenas rir. Também aprendi muito com esse grande mestre do humor, que foi descansar hoje, depois de lenta agonia. Com Chico eu aprendi muito sobre generosidade, ao vê-lo servir de escada para tantos colegas, apesar de toda a sua genialidade, quando se  travestia  de professor Raimundo. O Bozó, o global mais orgulhoso que já existiu, me fez ver como o deslumbramento é algo que não quero para a minha vida. Por trás dos vastos bigodes de Justo Veríssimo, descobri, ainda criança, que a maior chaga do meu país é aquele tipo de político que tem total desprezo pelo povo. Nos cultos de Tim Tones, vinte e tantos anos atrás, Chico me ensinou como pode ser perigosa a mistura entre fé, fanatismo e dinheiro. Alguém quer lição mais atual?
Hoje, a morte de Chico Anysio me fez lembrar de tudo isso. E dos discos dele que meu pai tinha lá em casa. Da minha infância, da minha família, das brincadeiras com amigos - onde tantas vezes e pelos mais diversos motivos repeti e ouvi repetirem seus bordões inesquecíveis. Chico é peça sem reposição. 
E a esse grande artista, cabe apenas o meu muito obrigado...